PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (34)
Não era propriamente um mendigo, pelo menos do que se espera
de uma definição clássica de um maltrapilho errante. Era alto, forte e até
bonito, não aparentava estar sujo, apesar da barba e dos cabelos mal aparados,
nem tinha nos olhos a dor de ser sozinho no mundo. Bêbado? Ninguém jamais o
vira bebendo, desde que se instalou na praça, fazia dois ou três dias. Maluco,
então? Não rasgava dinheiro, não corria atrás de gente alguma, não imitava
personagens, enfim... era apenas na dele e calado. Muito na dele e muito
calado. Ah, claro, vai ver era mudo... Também não, pois nas três vezes que lhe
ofereceram um prato de comida, uma embalagem de um litro de leite e um saco de
biscoito, esticou as pernas sempre cruzadas e respondeu um sonoro “muito
obrigado”. Que mistério! Quem era aquele rapaz, desconhecido nas redondezas e
nos hábitos? Obviamente que as especulações começaram a brotar feito formiga em
piquenique. Uns diziam que ele era um estrangeiro com amnésia, outros garantiam
que se tratava de um rapaz da cidade grande, sem dinheiro para voltar para
casa. E tinha até quem acreditasse ser ele um policial disfarçado, investigando
o consumo de drogas na região (os frequentadores da madrugada, da turma do
fumacê, haviam sumido, olha que bandeira). O fato é que ali estava o rapaz,
desconhecido de todos, mas tão presente no dia a dia da praça da cidade. O
assunto foi parar na prefeitura. Gente com acesso ao prefeito reclamou do
homem, alertou para a possibilidade de acontecer algo de ruim e da praça se
tornar proibitiva para gente de bem. Um exagero, repetia o prefeito, que
prometeu tomar alguma atitude. No dia seguinte, acompanhado do delegado da
cidade, o alcaide foi até a praça, logo cedo, antes mesmo do início de seu
expediente. O local estava vazio, sem viva alma para contar alguma estória.
Olha daqui, olha dali, volta pelo quarteirão, e nem sombra da figura obscura,
porém loira e branca feito areia de praia. O mistério perduraria, agora sem a
presença física de um corpo estranho, até
que o delegado encontrou um papel geometricamente dobrado sobre um banco. Era
um bilhete. “Meditar é preciso”, estava escrito. E o iogue nunca mais ali
apareceu.