domingo, 30 de junho de 2013

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (40)

A praça é do povo, e até os seus velhos bancos de concreto sabem disso. Mas naquele dia, especialmente naquele dia, as pessoas despertaram e resolveram, de fato, tomar posse do que é seu. Um mundo se aglomerou entre o parquinho, as mesas para jogos de carteados e a quadra imaginária dos meninos, e até no chafariz tinha felizes e molhados proprietários daquele espaço popular, daquele chão de todos. Era dia de manifestação, dia de mostrar a insatisfação geral e irrestrita da população, um sonoro “tou de saco cheio”.  E apareceu foi todo tipo de gente. E põe gente nisso: gente magra, gorda, alta e mais ou menos, gente ruiva, calva, cabeluda, vara pau e musculosa, gente com grana, sem dente, sem beira e nem eira, gente de vestido de domingo, de chinelos de dedo e de coturno militar, gente assim e gente assada, gente feliz e falando alto, gente corajosa e colorida, gente que pensa e sonhadora, gente como a gente. Estava todo mundo lá, se representando, porque pastor algum representa suas ovelhas, o que dirá as desgarradas... Pois foi esse o cenário que ela encontrou na primeira manifestação política de sua vida. Uma legítima festa da democracia. “Saí do Facebook”, estava escrito no cartaz que preparou, três dias antes, tamanha era sua ansiedade. Seus 16 anos lhe davam a certeza de estar cumprindo com o dever cívico; afinal, já tinha idade até para votar. Pintou faixas verdes e amarelas nas bochechas rosas, e não largou o smartphone com a filmadora ativada, como se tivesse baixado um Glauber Rocha da vida – ou melhor, como se tivesse feito um download espiritual de um cineasta em transe. Olhava tudo ao seu redor, e mais um pouquinho, maravilhada. Até que parou a câmara, os olhos, e até o coração, num guri de cabelos encaracolados, camiseta com o símbolo do movimento hippie, e um cartaz com os dizeres “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Descobriu, naquele instante, que valia à pena ir para as ruas e, mais do que isso, que os livros de contos de fadas tinham mesmo razão: o amor à primeira vista existia. Depois, já em casa, ficou com vergonha de contar para os pais que passou a manifestação inteira desejando a propriedade privada alheia – no caso, os caracóis dos cabelos dele. Mas no bolso, tinha a prova do crime, de que vale mesmo à pena se manifestar: “Fabiano 2803-2013”.