quarta-feira, 5 de março de 2014

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (41)

Ela era branca feito neve. Mas preferia dizer que era branca feito vestido de noiva, porque não gostava de contos de fadas. Não demorou a associar a analogia ao seu sonho secreto. Sim, secretíssimo, porque a todos dizia que era desgarrada de convenções, e que casório era para os fracos. Mas o fato é que queria casar, papel passado, de véu, grinalda e chuva de arroz no final da cerimônia. Lia o jornal todos os dias, de cabo a rabo (principalmente rabo), mas não era desejo de se informar, ah nãoooo. Era pra ter assunto, fazer bonito em roda de bar, parecer inteligente e antenada. Seu sonho, esse sim, era o que a consumia de verdade, dia e noite (principalmente noite). E a vida seguia assim, não necessariamente nessa ordem: o sonho do altar, as letras sem sentido, a pose blasé... e passeios perdidos pela praça. Ia quase que diariamente à praça, porque não imaginava cena mais romântica do que um primeiro beijo, roubado, em banco público. Melhor ainda, ao movimento do balanço ou da gangorra, tanto faz. Ela parecia antenada e descolada, mas isso também era para os fracos. Ela era branca feito vestido de noiva, e, pensando bem, gostava mesmo era de um conto de fadas.