PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (41)
Ela era branca feito neve. Mas preferia dizer que era branca feito vestido de noiva, porque não gostava de contos de fadas. Não demorou a associar a analogia ao seu sonho secreto. Sim, secretíssimo, porque a todos dizia que era desgarrada de convenções, e que casório era para os fracos. Mas o fato é que queria casar, papel passado, de véu, grinalda e chuva de arroz no final da cerimônia. Lia o jornal todos os dias, de cabo a rabo (principalmente rabo), mas não era desejo de se informar, ah nãoooo. Era pra ter assunto, fazer bonito em roda de bar, parecer inteligente e antenada. Seu sonho, esse sim, era o que a consumia de verdade, dia e noite (principalmente noite). E a vida seguia assim, não necessariamente nessa ordem: o sonho do altar, as letras sem sentido, a pose blasé... e passeios perdidos pela praça. Ia quase que diariamente à praça, porque não imaginava cena mais romântica do que um primeiro beijo, roubado, em banco público. Melhor ainda, ao movimento do balanço ou da gangorra, tanto faz. Ela parecia antenada e descolada, mas isso também era para os fracos. Ela era branca feito vestido de noiva, e, pensando bem, gostava mesmo era de um conto de fadas.