domingo, 30 de junho de 2013

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (40)

A praça é do povo, e até os seus velhos bancos de concreto sabem disso. Mas naquele dia, especialmente naquele dia, as pessoas despertaram e resolveram, de fato, tomar posse do que é seu. Um mundo se aglomerou entre o parquinho, as mesas para jogos de carteados e a quadra imaginária dos meninos, e até no chafariz tinha felizes e molhados proprietários daquele espaço popular, daquele chão de todos. Era dia de manifestação, dia de mostrar a insatisfação geral e irrestrita da população, um sonoro “tou de saco cheio”.  E apareceu foi todo tipo de gente. E põe gente nisso: gente magra, gorda, alta e mais ou menos, gente ruiva, calva, cabeluda, vara pau e musculosa, gente com grana, sem dente, sem beira e nem eira, gente de vestido de domingo, de chinelos de dedo e de coturno militar, gente assim e gente assada, gente feliz e falando alto, gente corajosa e colorida, gente que pensa e sonhadora, gente como a gente. Estava todo mundo lá, se representando, porque pastor algum representa suas ovelhas, o que dirá as desgarradas... Pois foi esse o cenário que ela encontrou na primeira manifestação política de sua vida. Uma legítima festa da democracia. “Saí do Facebook”, estava escrito no cartaz que preparou, três dias antes, tamanha era sua ansiedade. Seus 16 anos lhe davam a certeza de estar cumprindo com o dever cívico; afinal, já tinha idade até para votar. Pintou faixas verdes e amarelas nas bochechas rosas, e não largou o smartphone com a filmadora ativada, como se tivesse baixado um Glauber Rocha da vida – ou melhor, como se tivesse feito um download espiritual de um cineasta em transe. Olhava tudo ao seu redor, e mais um pouquinho, maravilhada. Até que parou a câmara, os olhos, e até o coração, num guri de cabelos encaracolados, camiseta com o símbolo do movimento hippie, e um cartaz com os dizeres “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”. Descobriu, naquele instante, que valia à pena ir para as ruas e, mais do que isso, que os livros de contos de fadas tinham mesmo razão: o amor à primeira vista existia. Depois, já em casa, ficou com vergonha de contar para os pais que passou a manifestação inteira desejando a propriedade privada alheia – no caso, os caracóis dos cabelos dele. Mas no bolso, tinha a prova do crime, de que vale mesmo à pena se manifestar: “Fabiano 2803-2013”.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (39)

Não dava para ouvir direito o diálogo entre elas duas, muito mais pela voz contida de uma delas, mas a conversa era mais ou menos assim:

- Quando eu fico doidaça, eu simplesmente passo a ser mais eu. E isso tem nome: li-ber-da-de – soletrou, com direito a hífens que andam tão em baixa na nossa língua.
- Eu conheço isso por outro nome: ir-res-pon-sa-bi-li-da-de. Também é bem conhecido como imaturidade, vadiagem, molecagem e p-o-r-r-a l-o-u-q-u-i-c-e – devolveu, com direito a muito mais hífens.

E a discussão não parou aí. Transformou-se no espetáculo do fim da tarde, para aqueles que insistiam em ficar na praça, embora estivesse esfriando e nuvens pretas anunciavam chuva para já. A libertária, claro, tinha gestos mais contundentes, teatrais, usava o corpo inteiro para se expressar, às vezes parecia uma cantora de ópera. A crítica era contida, e, mesmo nervosa, falava baixo, enquanto os olhos percorriam os cantos da praça, para ver se o mico era tão grande a ponto de mobilizar as pessoas que ali estavam. E mobilizou. Tanto que agora nem era preciso apertar os ouvidos e olhar disfarçado para a dupla – liberou geral, e a briga virou, mesmo, espetáculo de teatro de rua, mas sem direito a chapéu recolhendo grana no final.

- Você acha que eu estou preocupada? Tou nem aí para esse povo careta. Porque eu pago minhas contas, e não permitirei que você, nem ninguém, me julgue impunemente. Muito menos quem não me conhece, não sabe, como eu, o sabor do pão que o diabo amassou. E sem margarina, viu? – rebateu, acrescentando ao final uma risada histriônica.

- Quer saber? Isso é discurso, balela, retórica. Fuga dos fatos. Você simplesmente resolve esquecer da vida, pega carona em alguma viagem pessoal interplanetária, e esquece de seus compromissos. E não é um compromisso assim, sem importância. Você esqueceu de mim... – a voz, agora, era ainda mais baixa, e ela já não olhava mais para os lados. Chorava.

- Tenho meus amigos, meus compromissos, meus interesses. Sou uma mulher independente, tenho idade para isso. Você deveria saber disso, deveria estar acostumada já com isso – rebateu, em um tom menos agudo e mais conciliador.

E foi por aí que a briga enveredou, até virar conversa, terminando numa boa lavagem de roupa suja. A mãe, de saia indiana, colares multicoloridos, tranças enormes e braços tatuados, abraçou a filha e prometeu não mais “viajar” na frente dela que, por sua vez, jurou, de pés juntos, que qualquer hora tomaria coragem e experimentaria embarcar com ela para outros horizontes. Saíram da praça abraçadas, mãe e filha, calejadas pelo choque de gerações.

sábado, 18 de maio de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (38)

Ela era a mais perfeita tradução de uma boneca Barbie. Alta e magra, pele clara e cabelos loiros bem longos e finos, mas de um loiro, assim, de gosto duvidoso. Algo com a naturalidade de um cabelo fabricado em laboratório e quase perfeito, já deu para entender? A roupa, eu particularmente nem saberia descrever... mas era grife dos pés à cabeça. Engraçada era a bolsinha ajeitada no ombro esquerdo, rosa pink, quase do tamanho de uma carteira, de tão pequena e, para mim, inútil. Mas ouvi dizer que tem bolsa que custa quatro dígitos, e aquela devia ser uma destas peças raras. Muita maquiagem e salto agulha tinindo de novo. Ele de blazer bem cortado, sapatos de couro, tudo muito combinado e elegante, sem falar nos cabelos grisalhos tratados quinzenalmente no salão. E as unhas? De tão perfeitas, nunca devem ter frequentado um fla-flu na vida. Um verdadeiro metrossexual de meia idade. Pois foi esse o casal que desceu daquele carro magnífico, importado, cujo IPVA e seguro pagam o aluguel anual de muita gente, mas que, como todo simples mortal (não acredito que escrevi isso), também quebra vez por outra. O carro enguiçou, e enquanto esperavam pelo socorro do seguro, decidiram sentar no banco da praça. Bem, ainda não inventaram praça com ar condicionado, e ali não era como o restaurante exclusivo para onde seguiam, lugar em que se come pouco e se fala menos ainda, mas perfeito para ser visto e comentado. Então, o que fazer para passar o tempo?  A carrocinha de cachorro-quente estava absolutamente fora do plano deles, me poupem... O angu, nem sabiam o que era – e provavelmente tinham raiva de quem sabe. Também não pega bem chupar picolé no palitinho, naqueles trajes, em uma praça pública. Só lhes restavam conversar, um com o outro. Não parecia uma tarefa tão simples, porque uma conversa precisa de um assunto que sustente mais de duas ou três intervenções de cada um. Mas não custava tentar.

- Quando eu era pequeno, vivia numa praça perto de casa. Chorava toda vez que era hora de ir embora – disse ele, quase que para si mesmo.

- Então isso te traz boas lembranças, não? – retrucou ela, tentando ser amável.

- Nem lembro direito... Comecei a trabalhar com 12 anos, a partir daí não tinha tempo para nada, depois cismei que deveria construir um império, e não sai daquele escritório enquanto meu sonho não se realizou. Na verdade, já sou um imperador, mas continuo preso no escritório. Nem sei como se brincava... – respondeu, lamentosamente.

- Nunca frequentei praças. Minha mãe não queria que eu me misturasse. Dizia que não ficava bem. Só deixava eu brincar com as crianças do prédio, no playground. E nem era com todas – ela abriu o coração.

O socorro chegara, o carrão agora estava okey, e a hora estava adiantada. Mas eles continuavam ali, na praça, noite adentro, comendo cachorro-quente, chupando picolé e dando risadas altas.


quarta-feira, 15 de maio de 2013

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (37)

Eu não saberia falar, assim, de bate pronto, qual era a cor do cabelo dela. Para mim, arriscaria numa profusão de dourados; não de um ouro de ostentação e luxúria, como muita gente quer e busca para si, mas uma gama de dourados de sonhos, do ouro de um troféu justo e suado, talvez no tom de um delicioso caramelo na boca de uma criança feliz. Outros poderiam rapidamente definir a cor de sua cabeleira sem pestanejar e, o que é muito pior, sem emoção alguma, como pode? Teriam, até, imagine você, aqueles que nem reparariam nela, mas esses poucos nem vale à pena citar, tamanha falta de respeito com o belo, ora bolas. Eu, não. Fiquei a navegar na tabela das cores das minhas emoções, perdido e sem fôlego. Os cabelos invadiam suas costas morenas, e balançavam, ora em movimentos de bossa-nova, ora no tom de uma orquestra sinfônica momentos antes dos aplausos. Ela sentou no banco da praça e eu a segui, em intenção e inteiro, embora sem me movimentar. Não conseguia tirar os olhos dela, e o mundo ali, me chamando à realidade e me oferecendo outros predicados: o jogo não começou porque ainda não me posicionara no gol do time sem camisa; o mate gelado não foi aberto, sequer comprado, para matar a sede da tarde; e a roda do papo não esquentou porque a roda nem se formou. O meu gol, minha sede e meu assunto estavam ali. E eu tentando entender o que não se deve, jamais, buscar compreensão. Afinal, faria sentido definir a cor de seu cabelo? Teria serventia desvendar um mistério que existia justamente para me perder (e prender) em buscas sempre intensas? Até hoje eu acompanho aqueles cabelos toda vez que ela passa pela praça, afinal toda paixão é sempre uma primeira vez.          

sábado, 4 de maio de 2013

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (36)

Cada um defende o herói que lhe convém. Um homem feito de ferro, ou biônico, que vale seis milhões de dólares, que use capa ou máscara e espada, talvez uma mulher maravilha ou um trio de panteras... o que importa, nessas horas, é combater o mal e, claro, vencê-lo. Se possível, como se fosse no último minuto do segundo tempo, com um gol de pênalti mal marcado, e sempre com o rosto e o corpo marcados, com muitos arranhões e algum sangue, para dar mais emoção. Os heróis citados na rodinha da praça eram praticamente os mesmos, incluindo, claro, alguns pais. Mas a turma se calou foi quando um dos meninos, um moleque franzino e baixinho, que sempre usava um boné virado para trás, revelou seu herói preferido: “Seu Geraldo”. Gargalhadas e vaias se misturaram, deixando-o constrangido e calado. Alguém se lembrou de questionar quem era esse herói, de nome tão comum e desconhecido, mas a gritaria era tamanha que ninguém ouviu a resposta: “é o porteiro do meu prédio”. Os meninos continuaram a zoá-lo, em um bullying orquestrado, até que - coincidência de herói? - Seu Geraldo apareceu para buscá-lo, à pedido da mãe do menino. O herói era tão magro quanto seu fã, lhe faltavam músculos e cabelos e, para falar a verdade, até mancava um pouco de uma perna. Isso sem falar que parecia um tanto - como dizer? - velho para ser da liga da justiça. Onde já se viu um herói de ralos cabelos brancos? O moleque o abraçou, saiu da rodinha de nariz em pé, altivo como alguém que tira nota dez em prova de trigonometria, e já um tanto afastado da turma, levantou o dedo médio e gritou: “Esse é o Seu Geraldoooooo. E ele não é pouca coisa nãooooo”.  Ainda ouvia o eco das risadas, quando se virou para o porteiro e, com uma voz ansiosa e ao mesmo tempo confiante, pediu: “Seu Geraldo, me conta de novo como o senhor conseguiu matar aquela ratazana enorme, que invadiu o prédio ontem pela manhã?”. E o herói pôs se a reproduzir a luta do bem contra o mal, cheio de detalhes e lances espetaculares, pela terceira ou quarta vez...

quarta-feira, 1 de maio de 2013

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (35)

Não existia amizade mais forte do que aquela. Eles dois eram unha e carne, pastel e recheio, cabeça e chapéu. Não havia dia que não se encontravam na praça e brincavam, como se nada mais importasse, inclusive o tempo. Nunca reclamavam da hora de parar, porque sabiam, um e outro, que depois a brincadeira sempre recomeçaria. E tinha mais: nessa amizade, não havia espaço para terceiros, quartos e quem mais viesse. Quando o primeiro chegava na praça, ficava de prontidão, a esperar pelo outro. E era uma espera solitária, porque o mais apressadinho simplesmente não brincava enquanto o outro não aparecesse. De certa forma, não havia quem não achasse aquela amizade linda, exemplar, cativante. Mas também não tinha quem não estranhasse tanta exclusividade. Vai entender a cabecinha daqueles dois... mas se estão tão felizes, para quê questionar? Eu é que não iria me meter na felicidade alheia. E assim eles foram crescendo, crescendo – e todos em volta também. A amizade, as brincadeiras, os encontros, entretanto, não mudaram, porque dizem que em time que está ganhando não se mexe, vai ver era isso... Mas as necessidades de crianças são diferentes do que querem os pré-adolescentes e, ainda mais, os “aborrecentes”. Agora é que os mais curiosos ficaram de butuca ligada, esperando para ver onde aquilo ia dar, porque namorar é preciso, e aquela amizade era assim, amigos para sempre. Ambos começaram a se dar conta de certas diferenças, sentiram necessidade de ampliar seus horizontes, começaram a procurar novos ambientes, sentiram novos desejos, mas não deixaram de frequentar, ainda que de vez em quando, a praça. Afinal, por que um cão não pode ser amigo de uma gata?

quarta-feira, 10 de abril de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (34)


Não era propriamente um mendigo, pelo menos do que se espera de uma definição clássica de um maltrapilho errante. Era alto, forte e até bonito, não aparentava estar sujo, apesar da barba e dos cabelos mal aparados, nem tinha nos olhos a dor de ser sozinho no mundo. Bêbado? Ninguém jamais o vira bebendo, desde que se instalou na praça, fazia dois ou três dias. Maluco, então? Não rasgava dinheiro, não corria atrás de gente alguma, não imitava personagens, enfim... era apenas na dele e calado. Muito na dele e muito calado. Ah, claro, vai ver era mudo... Também não, pois nas três vezes que lhe ofereceram um prato de comida, uma embalagem de um litro de leite e um saco de biscoito, esticou as pernas sempre cruzadas e respondeu um sonoro “muito obrigado”. Que mistério! Quem era aquele rapaz, desconhecido nas redondezas e nos hábitos? Obviamente que as especulações começaram a brotar feito formiga em piquenique. Uns diziam que ele era um estrangeiro com amnésia, outros garantiam que se tratava de um rapaz da cidade grande, sem dinheiro para voltar para casa. E tinha até quem acreditasse ser ele um policial disfarçado, investigando o consumo de drogas na região (os frequentadores da madrugada, da turma do fumacê, haviam sumido, olha que bandeira). O fato é que ali estava o rapaz, desconhecido de todos, mas tão presente no dia a dia da praça da cidade. O assunto foi parar na prefeitura. Gente com acesso ao prefeito reclamou do homem, alertou para a possibilidade de acontecer algo de ruim e da praça se tornar proibitiva para gente de bem. Um exagero, repetia o prefeito, que prometeu tomar alguma atitude. No dia seguinte, acompanhado do delegado da cidade, o alcaide foi até a praça, logo cedo, antes mesmo do início de seu expediente. O local estava vazio, sem viva alma para contar alguma estória. Olha daqui, olha dali, volta pelo quarteirão, e nem sombra da figura obscura, porém loira e branca feito areia de praia. O mistério perduraria, agora sem a presença física de um  corpo estranho, até que o delegado encontrou um papel geometricamente dobrado sobre um banco. Era um bilhete. “Meditar é preciso”, estava escrito. E o iogue nunca mais ali apareceu.

sexta-feira, 22 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (33)


Era uma mesa de concreto, com uma pintura de quadrados em preto e branco no tampo, sugerindo um tabuleiro de damas. E outra, sem a tal sugestão, servindo para um carteado amigo. Poderiam ser, também, uma garagem de carrinhos, obstáculos de uma corrida, mesas de piquenique ou mesmo um banheirinho de totó, depende de quem as usava. Na ocasião, quatro senhores, que juntos tinham a idade do vampiro Nosferatu, jogavam canastra na mesa que poderia servir como tabuleiro de damas. Já a mesa que não tinha o tal tabuleiro pintado estava vazia, até que chegaram mais dois senhores. Agora, a soma da idade deles dava para distribuir entre Nosferatu e uma de suas esposas. Os dois sentaram-se à mesa vazia, colocaram sobre ela uma caixa, cheia de peças de dama e... só quando foram arrumar o jogo perceberam que estavam na mesa errada. Um olhou para o outro, o outro esperando a iniciativa de um, mas foi um senhorzinho franzino do carteado quem iniciou a pendenga: “Xiiiii, esse jogo de damas vai ficar para amanhã. Amanhã!!”, disse, numa voz muito maior que seu corpo, e aos risos. Ficou engraçado, porque um de seus oponentes, gorducho e de bochechas rosas, também entrou no bonde da zoação, mas com uma voz fina, estranha ao seu corpanzil. “E tratem de madrugar, senão o jogo fica para depois de amanhã. Depois de amanhã”, copiou o colega. Os atletas de damas pareciam não crer no que ouviam. “Deixa de bobagem. Vamos trocar de mesas e está tudo resolvido”, contemporizou um deles. “Moleza, todo mundo feliz”, emendou o outro. O que parecia o óbvio se tornou uma disputa intensa. Um terceiro jogador de canastra disse que não levantaria dali nem se o Papa argentino pedisse pra sair e convocasse o cardeal brasileiro para assumir o trono de Roma. Risos de um lado, reclamação de outro, uma fala mais alta aqui, ainda mais alta acolá e quando se viu, quem estava jogando damas ou canastra? Os bocós estavam era na maior discussão, emanando a Constituição, artigos do Estatuto do Idoso, até o Código de Defesa do Consumidor entrou na estória, sabe-se lá porquê. Isso sem falar no primeiro palavrão, ainda tímido, que apareceu na roda. E um segundo, um terceiro, e agora era uma cena proibida para menores. Que confusão! A praça parecia pequena para eles, pois a briga chegou ao divã de Freud, e foi se banhar no rio que Heráclito jurava nunca ser o mesmo... se é que era isso aí que um dos senhorzinhos queria dizer. Quando se deram conta, escureceu. E no escuro não tem jogo, é hora de tomar sopa e ver televisão com a patroa. Um olhou para o outro, alguém comentou que o tempo passara rápido demais, e outro disse que nunca havia se divertido tanto naqueles dias. Saíram os seis da praça, rindo e felizes. E combinaram que a disputa continuava no dia seguinte.

terça-feira, 19 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (32)


O trovão foi tão forte e demorado, que assustaria até bruxa, se bruxa houvesse ali. Mas uns moleques metidos, mau-encarados e esquisitos pra dedéu, isso tinha sim. E embora também fossem filhos de Deus, bateram palmas e gritaram bis! Eles se vestiam de preto, tinham cabelos compridos, que estavam de mal com o pente e o condicionador fazia era tempo, e conversavam numa língua parecida com o português, mas ininteligível para qualquer um de nós. “Sacumé, o trova, brow?”; gritou um, querendo dizer... e eu sei? O fato é que um segundo trovão, ainda mais forte e demorado, anunciou o temporal que estava por vir, e, àquela altura do campeonato, o povo já tinha ido embora da praça, aos passos largos e reclamações endereçadas a São Pedro, que estragou o lazer de todo mundo. Bem, de todo mundo, não. Os guris permaneceram na praça, e cada cidadão ou cidadã que cruzava a fronteira da esquina mais próxima ganhava palmas e assovios do grupo. O terceiro trovão era de assustar até lobisomem, Saci Pererê e zumbi com sono (a pior espécie deles), e veio acompanhado de pingos grossos, frequentes, mas ainda espaçados. E foi aí que o grupinho fez a festa. Um deles se levantou e começou a dançar freneticamente, soltando uns “uhhu” que marcavam os passos. Outro resolveu lhe acompanhar, era algo semelhante a índios em uma dança da chuva. A praça era deles, e de grandes poças d’água, que começaram a se formar rapidamente, porque neste momento já chovia bem. Eles se divertiam tanto, as gargalhadas molhadas eram tão fortes, que nem perceberam que estavam ilhados. Porque choveu mais e mais, trovejou mais e mais forte, acabou a luz, o vento correu, uma árvore caiu, não havia viva alma por perto, e era impossível sair dali porque quem iria imaginar, um dia, que era preciso ir para a praça levando um bote inflável à tiracolo? Os moleques tremiam de frio, e o que era um espetáculo da natureza se transformou em um pesadelo real. Raios, trovões, chuva forte, vento, que medo! Um deles, viciado em filme de terror, que adorava gargalhar enquanto Chukkyes e Freddyes Krueger jorravam sangue pela tela, lembrou de várias cenas e começou a chorar. O outro ali descobriu Jesus, e começou a rezar. Estava tão nervoso, que nem gíria usou, crê nisso? O fato é que os até então inatingíveis do time de preto, dos cabelos desarrumados, adoradores do mal, se transformaram em carneirinhos desprotegidos, querendo colo de mãe. Até que acabaram, todos eles, um bom tempo depois, debaixo do chuveiro de suas casas. Com direito a condicionador e pente fino.

quarta-feira, 13 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (31)

O castelo parecia intransponível. O muro era altíssimo, construído com pedras seculares, e estava cercado por um lago repleto de jacarés. Ou crocodilos, o que for mais ardiloso e mau. A ponte estava içada, e seriam necessários vários de homens bem musculosos para baixá-la à força. Do alto das torres, arqueiros em posição de ataque, esperando a ordem do capitão. Como nos filmes medievais, tinham flechas em chamas. Duas das torres centrais contavam com catapultas, que lançariam pedras como granadas, ao simples “já” do mesmo capitão. Aliás, o capitão vestia uma roupa incomum àquela época. Enquanto seus comandados eram soldados medievais, ele era um caubói, com direito a botas, colete e chapéu. E um cinturão segurando as calças, com uma cartucheira, revólver e balas, muitas balas. Isso era um detalhe que pouco importava, porque ele era um capitão mau, muito mau, que dava ordens aos berros, voz grave e tenebrosa. O capitão caubói havia sequestrado a princesa, e o príncipe precisava resgatar o seu amor. Uma estória como essa precisa ter muita ação e um final feliz, mas como o príncipe iria atravessar aquela fortaleza e salvar sua amada? Era preciso, porém, um pouco de imaginação para saber que o príncipe era o dito cujo, porque ele não usava botas, nem capa, nem coroa, e muito menos tinha uma espada mágica. Era um índio, peito de fora, cocar colorido, arco e flecha nas mãos. Mas era um príncipe lindíssimo, muito rico e poderoso, que estava acostumado a situações como aquela. Ele estava escondido atrás de uma moita, mal respirava para não ser notado, mas sua cabeça estava a mil, pensando em um plano infalível para cumprir sua missão com êxito. Voar seria arriscado, porque os arqueiros o matariam, com suas flechas de fogo. Só havia um jeito para vencer o capitão caubói da voz grave: ficar invisível. Até aí, tudo certo, mas como salvar a princesa sem ser notado? Ahn, claro, bastava torná-la invisível também! O plano parecia infalível e o príncipe cara, corpo e roupa de índio decidiu fazer a operação secreta à noite, quando todos gatos são pardos, menos os invisíveis. Resolveu esperar, esperar, esperar... quando ouviu a poderosa voz de um gigante, ops, de uma giganta: “Juninho, junta os bonecos todos e vamos simbora da praça, porque tá na hora de almoçar, e sua mãe me mata se a gente se atrasar”. Uma giganta daquela, nem o capitão caubói, muito menos o príncipe cara, corpo e roupa de índio podiam enfrentar. 

sábado, 9 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (30)

Ele ficou tão bravo, mas tão bravo, que não quis falar com ela. Limitou-se a enviar um torpedo, seco, milimétrico, perguntando onde estava, pois a esperava, no local marcado, fazia longos cinco minutos. Um, dois, três, quatro, cinco minutos, que, assim, para ele, pareciam uma eternidade. Ela, por sua vez, chegara 15 minutos mais cedo, porque estava ansiosa, porque estava com saudades, porque tinha horror a atrasos e porque o trânsito resolveu fluir bem naquele começo de noite. Leu o torpedo, releu, estranhou o tom fatídico, e ligou para ele. “Mas a gente combinou as sete da noite”, falou, substituindo o alô pela defesa da honra. “Nada disso, falei que estaria aqui as seis e meia, e  foi o que fiz. Cadê você?”, vociferou ele, num tom estranho à relação deles. Ela disse que chegara quinze minutos antes, e que não havia motivos para um desencontro. “Talvez você tenha pensado no horário, mas não me falou. Talvez eu não tenha entendido mal, que diferença faz? Foi um desentendimento, apenas, algo absolutamente corriqueiro, e você está fazendo um barulho do tamanho da mobilização nas redes sociais exigindo a renúncia do Renan Calheiros da presidência do Senado”, comparou, irritada, e, agora, criticando o namorado. O fato é que conversaram por menos do que três minutos, discutindo sobre a diferença de quinze minutos para cá, quinze minutos para lá. Falaram da hora, do respeito ao combinado, até que alguém lembrou do óbvio: “onde você está?”, um dos dois, pouco importa quem, perguntou. “Oras, onde marcamos, esperando por sua presença”, o outro respondeu. “Mas eu também estou onde combinamos”, estranhou o primeiro interlocutor. Deram-se conta da bobagem: ambos chegaram na praça na hora certa, a tempo de um beijo tão desejado, mas cada um esperou pelo outro numa ponta do local. Ele, ao lado dos balanços. Ela, quase na frente da igreja. Quando há falta de comunicação, a distância é muito maior. Marcaram, então, no coreto. E mandaram o desentendimento para bem longe dali, onde alguém pariu alguém.

segunda-feira, 4 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (29)

Um diamante, em estado bruto, é como o ar: a gente não vê, mas sabe que existe. O guri não acreditou no presente que Deus havia lhe enviado, assim, diretamente a ele, sem intermediários. Correndo pela praça, chutou uma pedrinha diferente, resolveu pegá-la nas mãos, e, quando viu o que era, começou a gritar, eufórico: “tô milionário, tô milionário, Deus me deu um diamante bruto”.  Ainda bem que as pessoas estavam muito ocupadas com seus afazeres - às vezes, fazer nada na praça dá a maior trabalheira - e ninguém ouviu seus devaneios. Porque de eufórico, ele passou para o estágio do medo absoluto, pois poderiam sequestrá-lo e, o que seria uma catástrofe, roubar sua pedra preciosa. Parou de berrar e se imaginou invisível, o que é muito difícil de acontecer com uma criança na faixa dos oito anos. Logo alguém veio perguntar se estava tudo bem, ora um amigo, ora uma babá conhecida, porque o guri parecia estar transtornado. “Dor de barriga, preciso correr para casa”, respondeu, com as mãos fechadas e trancadas feito chave de quatro voltas, com seu tesouro escondido ali. Começou a caminhar lentamente, depois apertou o passo para, enfim, desandar a correr para fora da praça. Queria sumir do recinto, encontrar a mãe e planejar a compra de uma fazenda e de muitos vestidos para ela. Só não contava com o acaso mais uma vez: de chinelos de tira, tropeçou em outra pedra e deixou cair seu bem precioso, o presente Dele, a solução para todos problemas das próximas cinco gerações de sua família. Um senhor estava por perto, e o acudiu. Levantou o garoto, perguntou se estava tudo bem, se abaixou, pegou algo no chão, e se voltou para ele: “Você deixou cair isso de suas mãos, quando tombou. É uma ponta de cristal linda. Dizem que dá sorte. Tome sua pedrinha”, disse, candidamente. “Pedrinha de cristal? Do tipo dos sapatos de princesa?”, pensou o menino. “Isso não pode valer muita coisa”, chegou a conclusão, atirando a pedra para longe, limpando a perna de areia e voltando para a brincadeira de pique com os amigos.

sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (28)

Ele se arrumava com todo esmero, até mesmo para ficar em casa. Estava sempre muito bem penteado, a barba feita e perfumado, com a mesma marca de colônia há 50 anos. Mas para ir para a praça, o que era capricho virava obsessão. Não aceitava sair com uma camisa que não estivesse mais passada que os tempos de vovó menina, trocava o lenço diariamente, e mandava lustrar os sapatos duas vezes, porque achava que Maria não o levava a sério, e cumpria a tarefa de qualquer jeito. Repetia, dia após dia, que passeio na praça era “coisa séria e para profissional”. Maria ria, e a intimidade de tantos anos servindo-o permitia um comentário irônico: “Ah, o senhor quer é caçar mulher!”. Ele ficava uma arara, e lembrava de sua esposa, falecida há quinze anos, que sempre exigiu dele uma elegância inglesa. Não poderia decepcioná-la, jamais, posto que fizera um juramento no altar, diante do padre e de Deus. E lá ia ele, bengala na mão e chapéu na cabeça, para seu compromisso diário, onde jogava cartas, criticava o governo e comentava os resultados dos jogos da semana. O curioso é que da forma que chegava, ia embora: arrumado, cheiroso, como se estivesse embrulhado em plástico. E assim levava a vida, até que Maria percebeu que um dia ele cumpriu sua agenda sem o chapéu. Correu atrás dele, com o dito cujo nas mãos, abanando-o como uma bandeira do seu time, mas ele fez com as mãos um gesto que dizia “deixa pra lá”.  Outro dia, nem tão longe desse, foi sem chapéu e não reclamou do lustre do sapato. Isso era inédito, se era. E para espanto de Maria, repetiu um lenço, nem se tocou de um mini-micro-quase-imperceptível amassadinho na camisa, e ainda desabotoou o seu primeiro botão, deixando o pescoço respirar. O que estaria acontecendo ao velho? O figurino inglês dera lugar a um homem elegante, sim, mas sem excessos, sem firulas e, principalmente, sem obsessão. Maria jamais entenderia a mudança. Mas ele, sim: enfim enterrara a esposa; e seu coração começou a bater, de novo, para alguém.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (27)

Esse negócio de encontro virtual é como o futebol, uma caixinha de surpresas. Eles se conheceram em alguma praça do ciberespaço, sabe Deus como, e começaram a se falar duas vezes por semana, utilizando o computador. Muito rapidamente, as duas vezes viraram quatro, que viraram sete; não tinha era dia que não havia um alô sequer, e sempre virtual. Nem os números dos celulares, eles trocaram entre si. Nenhum dos dois sabia explicar, mas estava bom daquele jeito.  Desejavam-se, mas também tinham, no íntimo, medo de se decepcionar, porque daquela forma parecia tudo tão perfeito... Ela o via como um cavalheiro, um homem sensível, educado e amante das artes e dos animais. Ele jurava que havia ao menos uma mulher no mundo que não tinha TPM, e esta mulher teclava com ele todos os dias. Como podem caber tantos elogios numa mesma pessoa? Esse talvez fosse o grande mistério do mundo virtual: cadê os defeitos? O fato é que a conversa foi ficando cada vez mais íntima, sentiam falta um do outro, e começaram a planejar o grande encontro. Depois de um bom tempo, resolveram, finalmente, se falar por telefone. Por que não? O celular tocou, ela reconheceu o número, e não atendeu. Depois, ficou arrependida, se achou uma adolescente histérica, mas ainda assim preferiu não retornar a ligação. Ele achou estranho, mas talvez essa estória do homem ter que tomar a frente, sempre, fosse importante para ela, e já começou a se incomodar como alguém tão perfeita e maravilhosa como ela pudesse sequer pensar em fazer joguinhos. Mas ligou de novo, no que ela atendeu no segundo toque. Foi um papo morno, embora a voz de um soasse bonita no ouvido do outro, e vice-versa. Na noite desse mesmo dia, teclaram tanto, mas tanto, que o dia nasceu e ele ainda estava contando como havia levado pontos no dedo mindinho, quando tinha oito anos. Engraçado, porque na semana seguinte, o fato se repetiu duas vezes: dois telefonemas mornos, seguidos de duas tecladas de doer as pontas dos dedos, tadinhos, mas de lavar a alma. Vai ver, era hora mesmo de sair do virtual, e ambos apostaram que sim. Marcaram o grande encontro na praça colada à casa dela. Dali, partiriam para algum lugar, escolhido de comum acordo. Quinze minutos antes da hora marcada, ambos já estavam sentados em um banco, lado a lado. O encontro foi morno. Resolveram, com a concordância dos dois, partir dali de novo para o virtual.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (26)

Não me pergunte como, mas ele guardava na cabeça, sem anotações, o número de vezes que fora à praça com ela, em 62 anos de casamento. Lembrava da data do primeiro passeio, sem direito sequer a mãos dadas, mas com a certeza de que era para sempre. O primeiro beijo, praticamente roubado, também foi ali, como foi a primeira briga, o primeiro reatamento, a escolha dos nomes dos quatro filhos e cada aniversário de um e de outro, que sempre eram comemorados na praça por apenas eles dois. Ele dizia que ali era a sua verdadeira igreja e que Deus inventou a praça para descansar em paz, depois de seis dias de intensos trabalhos. Todas as vezes que precisou tomar uma decisão importante, daquelas que mexem com a vida da família, o fez sentado no mesmo banco de sempre. Também viu os meninos crescerem, correndo pelos quatro cantos da praça, até que seus bumbuns não cabiam mais no assento do balanço. No dia que o menor dos quatro disse que não queria mais ir para a praça, trocando-a pelo mundo virtual de seu computador, chorou. Depois que se aposentou, passou a frequentar o local diariamente, no mesmo horário, acompanhado de sua esposa. As vezes, um ou outro neto aparecia, e ele pegava a criança pelas mãos e a levava até cada amigo ou conhecido, perguntando se havia coisa mais bonita nesse mundo. Ele mesmo respondia: “há, todos meus netos juntos”, e gargalhava. Para ele, ir à praça diariamente era um compromisso sagrado, e só a chuva o demovia do cumprimento de seu dever. Prestes a completar 85 anos, avisou a esposa que queria uma festa completa na praça. Com a presença de todos os parentes diretos, agregados e amigos íntimos que, em sua conta, daria umas 60 pessoas. Pediu bolo de nozes, brigadeiro branco e casadinho, apesar das proibições impostas por sue médico. E fez um último pedido: “quero dançar uma valsa na praça com você, em plena luz da tarde”. Absolutamente tudo o que ele pediu foi providenciado. Um filho viria da capital, com a família e os sogros, para a festa. Um amigo de infância, que não saia mais de casa, garantiu que abriria, neste dia, uma exceção. E nenhum detalhe foi esquecido pela esposa e as filhas, que ajudaram na produção do grande evento. Um dia antes, ele foi à praça, para se certificar de que o local estava devidamente limpo. Ficou mais tempo que o de costume e pediu para sua esposa ir para casa sem sua companhia, pois queria ficar um pouco só. E assim foi feito, no último dia dele em sua praça. Não teve outras visitas.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (25)

Ele parecia nervoso, e isso estava lhe deixando insegura. Desde que começaram a namorar, justamente naquela praça, há dois anos, nunca mais passaram uma tarde sequer no local. Mas ele insistiu tanto que aquele encontro fosse ali, que ela achou bem estranho. Disse que tinha algo a falar, que era importante e que nem sabia como fazê-lo. Lembrou da última briga do casal, não tinha nem dois dias. Ele não queria que fosse embora, mas ela insistiu em dormir em casa. “Meu pai não gosta”, justificou, deixando-o mais chateado ainda. “Você já tem 26 anos, quando vai crescer?”, esperneou ele. Mas o fato é que tudo ali estava estranho. Ele parecia ainda mais nervoso e ela reparou, inclusive, que ele vestira as meias ao contrário. Tentou adiar a conversa. “Preciso ir dormir cedo; não é você quem acorda amanhã antes das seis”, disse, definitiva e buscando um ponto final para a frase, que ele não permitiu. “O dia de amanhã não tem, agora, a menor importância. Importante é o que preciso te falar. Isso, sim, pode te deixar mais zonza que acordar antes do sol”, avisou. Aproveitou para dizer que pensou muito, que já estava decidido, que andava muito insatisfeito, e que não aguentava mais namorar uma “criança”. Relembrou as incontáveis vezes que ela trocou o bem bom com ele pelas ordens do pai - e não foram poucas, não foram poucas vezes mesmo. Disse, pela primeira vez em dois anos, que se sentia magoado dela não permitir, em hipótese alguma, que mantivesse, em sua casa, sequer uma escova de dentes para ela. “Isso me deixa louco”, vociferou. Inflado, e de certa forma aliviado com o início do falatório, começou a elevar o tom da voz, algo que ela sempre detestou. A coisa estava ficando era preta para os dois lados, quando ela resolveu dar um basta. Falou ainda mais alto que ele, deu um murro em seu peito, com as duas mãos, e mandou que ele chegasse aos finalmentes, porque se era para acabar, que terminassem naquele momento, exatamente na hora da primeira lágrima cair de seu olho. “Você tem toda razão!”, concordou, com voz baixa e doce, quem sabe, com medo da reação dela. “Chega de namoro. Quer casar comigo?”, sussurrou ele, olhando no fundo, lá no fundo de seus olhos cheios de lágrimas. “Quer?”.    

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (24)

O piquenique foi combinado com uma semana de antecedência. E os convidados receberam a expressa determinação de permanecerem calados sobre o evento, para que presenças indesejáveis fossem evitadas a qualquer custo. Se queriam falar entre si, que o fizessem por Código Morse, sinais de fumaça ou mesmo por telepatia. Mas por palavras, como “bolo de cenoura com chocolate”, “talheres descartáveis”, “guardanapos de papel” e “sanduichinhos de queijo com presunto”, nem pensar! Os rapazes ficaram responsáveis pelas bebidas. Mas foram devidamente proibidos de comprar cerveja e outros líquidos que passarinho não gosta. “É piquenique, e-n-t-e-n-d-e-u?”, repetiam as meninas, que deveriam levar doces e salgados. Bem, é claro que nem todos seguiram as regras do jogo, porque não seguir as regras do jogo é uma regra da adolescência. Teve gente que falou do piquenique até para as paredes da escola, teve menina que levou bebida, menino que levou doce, e aqueles que levaram apenas o estômago vazio... Mas no horário marcado, estavam todos lá, na praça, com bolsas, sacolas e disposição para ali ficar a noite toda. Sim, era um piquenique noturno, porque de dia tem sol, tem criança jogando bola, carrinhos de bebê estacionados por todos cantos, e não tem a lua, o silêncio, e o charme de passar madrugada adentro juntos. Estavam todos acomodados, quando alguém sacou um violão. Seria um piquenique perfeito, senão por um detalhe: a aniversariante não havia chegado. O motivo pelo qual o piquenique foi marcado, a produtora-chefe e idealizadora do evento, aquela que traria o bolo e as velinhas... essa justamente faltou. E começou uma discussão tremenda sobre o que fazer, então. Alguém sugeriu uma assembleia, com votação e palavra de ordem, mas foi vaiado. Outra propôs o adiamento do evento, mas levou sanduichinho na cabeça. E um terceiro gritou, a plenos pulmões, que todos deveriam buscar a aniversariante em casa. Foi ouvido, aplaudido, e seguido, numa passeata pró-aniversariante. Foi o primeiro piquenique da estória, que foi marcado na praça, mas que aconteceu, mesmo, foi num play de um prédio...

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (23)

Ele tinha 16 anos, ela dois a mais. Ele, um menino da zona sul do Rio de Janeiro, ela, do interior. Encontraram-se e amaram-se o quanto puderam, até que ela viajou para o exterior. Uma viagem sem passagem de volta, todas as roupas e álbum de fotos da família nas malas. Levou, também, o coração e as esperanças dele consigo. Era como se o mundo fosse se acabar: se não bastasse ser uma pessoa extremamente sensível, ele tinha alma de poeta e sofreu feito gente grande. Acreditou piamente no amor, mas descobriu seu lado mais perverso, logo na primeira vez que seu coração bateu diferente e definitivo por uma mulher. Outros amores vieram, a maturidade idem, a falta de informação parecia ter transformado tudo em um sonho de adolescência, quando se reencontraram pelas redes sociais. Trocaram e-mails tímidos, mas carinhosos, como se tivessem cuidado e um respeito exagerado um com a lembrança do outro. “Posso te telefonar?”, perguntou, em um e-mail sem título. Ele estava na praça, quando ela ligou. Não ficou mudo, mas escondeu o choro em risadas sem sentido. E ela estava ainda mais doce. “Estou embarcando para o Brasil depois de amanhã. Vou ao Rio resolver problemas de família. Ficarei na cidade por dois dias. Quero vê-lo”, avisou, trêmula. Ambos contaram os segundos, até o grande dia. Não se deram conta, mas escolheram como local a mesma praça do último encontro, antes da viagem definitiva e avassaladora. Reencontraram-se com um abraço longo, forte, afetuoso, como se os dedos e os braços buscassem, de cada um, o tempo perdido do outro. E se beijaram. De novo. E mais uma vez. E riram. Trocaram presentes e juras de amor. Resolveram, de comum acordo, não falar do futuro e não questionar o passado. Ou vice-versa. Apenas matar a saudade e fazer viver um amor adormecido, jamais aniquilado. Tantos anos se passaram, mais de trinta verões sem ele viajar para cidade dela, e parece que não se viam há um ou dois meses. Isso pareceu estranho e, ao mesmo tempo, confortador. As quase quatro horas de encontro voaram. Assim como ela, dois dias depois, sem telefonar para se despedir.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (22)

Essa seria a primeira vez que sairiam juntos. Bem, juntos já estavam, mas um programa a dois, com hora marcada e destino certo, esse era o primeiro, primeiríssimo para ambos, assim, juntinhos de verdade, sabe? A praça os esperava para um picolé, uma sombra com aconchego, uma tarde à dois, somente ele e ela. Um tempo único para olhares, beijos e carinhos... quantos beijos e carinhos estavam decerto programados... E um primeiro encontro não se deve menosprezar. É preciso estar preparado e devidamente arrumado. Ele gostava mesmo é de ficar descalço, mas calçou meia e sapatos, calça comprida e uma camiseta nova. De malha, mas novinha da Silva. Penteado, embora tivesse poucos cabelos, e perfumado, ainda que não gostasse muito de colônias de prateleiras de supermercado e lojas afins, estava um gato. “Um fofo”, ela diria, que voltou a usar saia jeans, pois emagrecera, e escolheu uma camisa florida de botões. “Mais fácil de abrir”, pensou e riu consigo mesma. Que aventura! Outra atitude, muitíssima bem pensada, foi carregar a bateria da câmera de bater fotos, e colocá-la na bolsa, na noite anterior, para não esquecer do detalhe de jeito algum. Era uma bolsa grande, maior do que as bolsas grandes de suas amigas, mas era preciso se prevenir. Vai que chove? Vai que esfria? Vai que eles demoram mais do que o combinado? Vai que vai...Batom, rímel e demais maquiagens, dispensou, pois queria estar o mais natural possível, além do que achava, de fato, que nunca esteve tão bonita como nestes tempos. Um passeio na praça, juntos, para todos verem, era perfeito para anunciar esse novo amor: a mãe e seu bebê recém-nascido, juntos para o sempre.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (21)

Ela estava fantasiada de onça, e se posicionou estrategicamente em frente aos músicos, diante do coreto, para dançar e apreciar a batida dos pandeiros. Ele apareceu por lá meio que por acaso; se tinha uma fantasia, era dentro de si – ser devorado por aquela felina linda, charmosa e de pele cor de cobre. Mas como se fazer notar? Se estivesse com roupa de caçador, espingarda na mão inclusive, chegava junto e a caçava poeticamente. Fosse uma roupa de mágico, chegava perto, rodava a varinha e dizia que iria transformá-la de onça em gatinha manhosa. Ainda que estivesse de palhaço, perguntaria se ela topava fazer, com ele, um número circense de suspense. Mas ele vestia short e camiseta, e nem um adereço tinha para lembrar que era carnaval. Pensou em cantar forte e bonito, talvez a oncinha percebesse, mas a praça estava lotada, e todos acompanhavam os sucessos, em um coral de bêbados e de gente feliz. Algum plano precisava ser arquitetado, e rápido, porque em uma selva como aquela, logo logo chegaria algum índio, um pirata talvez, mesmo um caubói, tentando amansar a fera cor de cobre. Apelou para a telepatia. Mirou seu desejo, sua vontade e seu chakra da comunicação nela, imaginou monte de iogues mentalizando com ele (“vem, oncinha, vem”), mas de nada adiantou. Muito pelo contrário; quando se deu conta, havia perdido o passo e nem sabia que música estava tocando. Teve uma ideia: cortou o papel com a letra do samba-enredo do bloco em três pedaços simétricos, os transformou em três bolinhas, e planejou jogá-las, uma de cada vez, em sua direção. A primeira atingiu um negão fantasiado de Minnie, que chegou a olhar pra trás, mas ele fez que nem estava aí. A segunda, sim, bateu bem no cucuruco da dita cuja, que percebeu a jogada, mas olhou para o lado oposto, com cara feia, diga-se de passagem, procurando o imbecil que lhe incomodara. A terceira bolinha, bem, essa ele deixou escapar pelas suas mãos, porque entendeu que isso não faria a menor diferença em seu dilema. Resolveu chegar mais perto. E mais. Um tanto mais. Aportou ao seu lado. Ainda tomava coragem para falar qualquer coisa, algo diferente e mais criativo que um “oi”... quando ela escorregou, sabe-se lá em quê, e caiu. Ele lhe estendeu a mão, e a trouxe de volta do chão. Enfim, os dois sorrisos se encontraram.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (20)

A cigana tinha mais vincos no rosto que os arranhões no portão de ferro do parquinho. Isso lhe dava, para os mais velhos, um certo ar de experiência e longa vida, mas provocava medo nas crianças. Também evitava roupas muito coloridas e caricatas. Usava saias e batas, sim, mas de cores neutras e sempre bem lavadas. Um colar mais chamativo, brincos discretos e um anel apenas, de prata de lei, que subia pelo dedo indicador como uma serpente enrosca sua vítima. No começo, ia um a um, oferecer seu serviço herdado há seis gerações – a leitura das mãos. Depois, já conhecida e até bem falada nas redondezas, preferia esperar por seus clientes, sentada no banco mais afastado dos balanços e das gangorras. Queria distância da meninada, que a chamava de bruxa. Fingia que nem ligava para o xingamento, mas isso a deixava triste. Afinal, se considerava uma boa pessoa e uma cigana séria. Quando via algo de muito ruim na mão alheia, pegava a pessoa pelo braço e dava uma volta, talvez para ganhar tempo e pensar como dar a notícia. No final das contas, dava uma volta na praça e na própria freguesa, porque falava, falava, mas a notícia ruim não dava. Notícia boa não tinha mais ou menos; abria o sorriso e falava na lata, e ainda dava os parabéns. Assim fez sua clientela, e com o tempo até os meninos pararam de chamá-la de bruxa, de tão familiar que ela se tornou daquela gente. Já era até chamada pelo seu nome de batismo, Nazira, e a todos repetia o significado: pessoa distinta. Era, isso mesmo, uma pessoa distinta, mas começou a perder sua clientela, de uma forma tão rápida quanto avassaladora. Chegou a passar um dia inteiro na praça sem apertar uma mão sequer, o que dirá ler a dita cuja. Foi nesse dia que se irritou, e foi ao sorveteiro perguntar se ouvira algum fuxico que justificasse tais acontecimentos. Também procurou a vendedora de doces e o pipoqueiro. Todos lhe apontaram um poste, localizado na ponta da praça. Lá estava colado o cartaz: “trago a pessoa amada em três dias”.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (19)

Uma tarde na praça, entre balanços, gangorras e piques, não é completa sem um lanchinho. Era o que repetia, pelos corredores da casa, a mãe de Karina, que sempre mandava um pequeno farnel, com bolo, alguma qualidade de fruta, cortadinha em cubos, e um suquinho de caixinha, quando sua filha ia brincar com as amigas na praça. Ela era daquelas mães que acham que os filhos sempre estão com fome ou frio, sabe como é? E tome lanchinho para cá e casaquinho para lá. Se não bastasse, também não confiava nas “atrações guolseimicas” que a praça oferecia. Já chamou o Seu Jorge, do algodão doce, de “mancomunado com o dentista”, acha que a Bete frita suas coxinhas e risoles com o mesmo óleo comprado no mês passado e nem poupa os picolés de Pretinho, porque na padaria custam um pouco mais baratos. Da mesma forma que levava seu conjuntinho de tapewares, devidamente arrumados e preenchidos, Karina era obrigada a carregar uma sacolinha com uma blusinha de manga, porque no final da tarde sempre podia bater um vento mais forte, e antibióticos estavam pelo olho da cara, era o que repetia a mãe da menina. A sorte dela era que o rigor de sua mãe com lanches e vestes não se aplicava à companhia propriamente dita. Karina ia sozinha para a praça, afinal já tinha nove anos, e sabia muito bem atravessar as ruas quase desertas de carros, que cruzavam o caminho de sua casa para a praça. Ia só e voltava feliz, e sempre encontrava a mãe ocupada, sem tirar os olhos de seus afazeres domésticos, perguntando, em alto e bom som, se comera o lanche e vestira a camisa de manga. Karina dizia que sim, e entregava os tapewares vazios e a camisa suja. Só não contava que trocava o farnel por um dos quitutes da Bete e que a blusa sempre era usada em brincadeiras como cabra-cega ou pique bandeira. Isso ela não contava de jeito algum.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (18)

De um lado, Bema, Clovis, Fininho, Davi, Cheiroso, Dedinho e Da Silva. Um esquadrão, dono de um cartel de vitórias de dar inveja ao Barcelona. Do outro, Babau, Claudinho, Ruy, Chupeta, Catatau, Sou Feliz e Armandinho, time de bambas, tudo filhote de Neymar, jogadores que partem para cima e, se o adversário der mole, ainda voltam para mais um olé. Uma partida antológica, e poucos arriscariam a palpitar o placar, na finalíssima que aconteceria naquela tarde, no estádio municipal Nossa Praça. A torcida comparece em peso: Enio, Vitinho, Siri, Mussum, Hélio, Waldemar, Crazy, Silvinho, Macedão, Macedinho, Graúdo, Renata, Claudinha, Suely e, acreditem se quiser, a mais linda menina do pedaço, Madalena. E é só, porque esse tanto de gente lota os dois bancos transformados em camarotes de honra para a peleja. Os times estão em campo, mas encontram um contratempo: quem consegue por para fora da linha o viralata Seu Zé? Adversário comum a todos, dá uma canseira na turma e só resolve deixar o campo depois de uns dez minutos de show. Ufffa, hora da bola rolar. Par ou ímpar decidido, o time de Bema vai sair com a bola, e a torcida se prepara para vibrar, mas... é preciso esperar a menina passar com o carrinho de bebê, e o dito cujo ali dentro, dormindo como se aquela fosse uma tarde absolutamente comum. E é claro que não era, porque esse jogo histórico estava marcado há exatos dois dias, e a ansiedade era tamanha que os meninos de um time nem falavam com seus adversários da outra equipe. Dizem até que Cheiroso e Chupeta trocaram juras e injúrias, com direito a tapas e pontapés, mas tal estória já fazia parte da lenda do clássico. E a bola finalmente ia rolar, não fosse mais um pequeno contratempo – a invasão de duas criancinhas em plena grande área de um dos times. Resolvido o probleminha, o jogo de fato começa, para alívio de todos e delírio da platéia. Clovis passa para Cheiroso que, de primeira, toca para Dedinho, que avança, todo todo, em direção ao gol do adversário. Ele dribla um e quando vai passar para alguém bem colocado, é interrompido. “Ruyzinho, vem agora! O almoço está pronto e você ainda precisa se lavar. Pega sua bola e já para casa”, decreta o fim do jogo a mãe do dono da redonda. Foi um zero a zero de amargar.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (17)

Ela era uma espécie de rainha do pedaço. Um xodó. Era paparicada por todos, do sorveteiro brincalhão ao mal humorado vendedor de algodão doce (como se coubessem mau humor e algodão doce numa mesma pessoa). Era gorda, peluda, tinha bigodes, até, e olhos esbugalhados. Mas não havia quem a achasse feia. Novinha, sim, uma adolescente ainda, mas era dona de si. Já havia até sido coroada rainha de bloco de carnaval, embora recusara a coroa gentilmente e fora embora da praça, pois detestava bumbos e repeniques. Ganhava doces, afagos e apelidos: “fofa”, “minha menina” e “goducha” eram os mais repetidos. Brincava com as crianças, era enturmada com os adolescentes e fazia o maior sucesso entre os adultos, principalmente os mais velhos. Tinha um senhor que se recusava a jogar canastra sem colocá-la no colo, no reparte das cartas. Dizia que dava sorte, acredita?  Pois ela reinou assim, por muito tempo, correndo aqui, esfregando o corpo peludo ali, latindo baixinho e fazendo balé com o rabo comprido e preto feito jabuticaba. Não tinha outra cadela que tivesse vida melhor, duvido que tinha. Mas tudo que reluz tem lá sua sombra... e o dia do juízo final dela chegou finalmente. A praça foi invadida por uma ratazana enormeeeee, peluda e gorda como ela, e dona da unanimidade geral e irrestrita: era horrível e metia medo em todos. Mas “goducha” tinha no DNA o ódio aos ratos, iria colocá-la para correr com o rabo entre as pernas – ou sem rabo, o que seria muito melhor. E todos acreditaram que a ratazana teria seus dias contados e que partiria dessa para uma melhor, quando desse de cara com uma inimiga mortal. Pois bem, não foi bem isso que aconteceu. “Fofa” correu da raia, tirou o time de campo, disse que não queria mais brincar, arregou, enfim, não cumpriu com seu instinto animal. Ao contrário, levou uns tapas da rata dos infernos, para não se meter à besta e não cruzar mais seu caminho. Sorte de uma gata serelepe, que mal chamava a atenção, tinha o pelo encardido, e viva das sobras de “minha menina”. Ela sim, deu um jeito bem dado na ratazana, e ainda a mostrou derrotada em público, porque de boba essa gata não tinha era nada. Em pouco tempo, começaram a chamá-la de “fofa”, “minha menina” e “goducha”. E nos dias de hoje, até um senhor não reparte as cartas no jogo de canastra, sem antes passar a mão esquerda em seu pelo, agora sedoso e cuidado.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (16)

Eles se conheceram na praça, mais precisamente no tanquinho de areia, que nem existe mais. Ele nem sabia engatinhar, mas ela, danadinha e espevitada desde aqueles tempos, o ensinou. Andaram no mesmo dia, acredita? O pai de um correu para a casa do pai da outra, para contar a novidade, e lá a encontrou, dando passos alegres pela sala recém-reformada. Quando fizeram cinco anos, se separaram pela primeira e única vez: foram três anos sem se verem, porque os pais dela mudaram para uma cidade distante dali uns 450 quilômetros. Quando voltaram, nunca mais se desgarraram. Juraram, séria e apaixonadamente, que morreriam juntos, no mesmo instante e bem velhinhos. Não suportavam a ideia do desencontro. Eles tinham 15 anos e já sabiam que um era feito para a outra. E que a outra nada era sem um. Já casados, ele era marceneiro, e trabalhava na garagem transformada em oficina, no fundo da casa. Assim, não se separavam jamais. Só deixaram de almoçar juntos uma vez na vida matrimonial, e essa mágoa ele trazia consigo até os dias de hoje: foi um almoço de amigas da escola, trinta anos depois de formadas, um encontro proibido para os meninos. Ela chegou a cogitar evitar o compromisso, mas dissera que ia, e faltar com sua palavra lhe deixava doente. Todos os dias, seguiam para a praça exatamente às 16 horas. Ele jogava buraco com os amigos, ela trocava receita com as comadres. Aos domingos, cantavam serestas ao som de três, às vezes quatro violões, e de mãos dadas faziam juras de amor, sem necessidade da palavra. Filhos? O destino não permitiu, e ele jamais aceitara adotar uma criança. Se bastavam, era o que diziam quando o assunto vinha à tona. Um dia, ele apareceu sozinho na praça. Todos estranharam, mas ninguém teve jeito de perguntar o porquê da ausência dela. Talvez tenham ficado com medo da resposta. Ou da reação dele. Até que alguém, muito timidamente, quase se desculpando, perguntou se ela estava bem de saúde. Ele tirou o chapéu, o descansou sobre as pernas, olhou para o vazio, e murmurou: “a vizinha a chamou para mostrar uma foto sua que colocaram nesse tal de feicibuque, e lá está ela, até agora, fuxicando aquilo lá”.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (15)

Ambos tinham apenas 13 anos. Se você perguntasse diretamente a cada um deles sobre suas idades, jamais diriam a palavra “apenas”, conjugada com o número. Talvez um “já”, quem sabe, com uma voz de auto-confiança forçada, mas o fato é que se sentiam suficientemente maduros para a viagem que queriam fazer, juntos: um easy rider pela estrada do amor. Eles queriam namorar, queriam se chamar de tchuco e tchuca, queriam beijos e suspiros, os primeiros sarros, a respiração alterada, a excitação fora de hora. Queriam trocar segredos e planejar o casamento, com dois filhos - um casal - e gatos espalhados pela casa. Até então, se encontravam na praça, território neutro, porém superpopuloso no horário da tarde, quando os pais permitiam a saída e nem lembravam de perguntar o local. Mas diante de tanta gente, amigos inclusive, como dar o primeiro beijo, em plena praça pública? Se ao menos o prefeito decretasse que aquela praça era dos apaixonados... mas quem disse que política existe para nos beneficiar, né? O fato é que tudo isso, e muito mais que pode caber na cabecinha e no coração apaixonado de um adolescente (e como cabe coisa, Deus meu!), estava assim, exatamente assim: na cabecinha e no coração, porque ambos pensavam, sentiam, mas não tinham coragem para dividir o sonho. Culpavam a praça cheia, quando iam dormir e arquitetavam planos shakespearianos para o encontro derradeiro. Um já pensou em chegar em um Jaguar vermelho, tomá-la de assalto, e fugir a 140 km por hora, para o horizonte perdido, onde o primeiro beijo seria fato. Outra já imaginara ser abruptamente carregada por ele, que chegaria num cavalo branco de crina longa, galopando, então, para uma floresta encantada, onde o primeiro beijo seria mágico. Mas, cadê o fato, o acontecimento, a história? O acaso, no entanto, resolveu dar uma forcinha para os dois. Naquela tarde, um amigo sugeriu um pique-esconde, todo mundo topou, e é claro que eles tiveram a mesma ideia: um ia atrás do outro, como quem não quer nada, para se esconder no mesmo lugar e, finalmente, revelar o que de fato estava escondido esse tempo todo. E assim aconteceu, já no primeiro esconde-esconde. Ambos foram parar dentro de um daqueles enormes tubos de concreto pintado de azul ou vermelho, que serve de brincadeira e de banheiro para gatos e cães de rua. Um fez “xiiiii” para o outro, com o dedo na frente da boca, sugerindo silêncio para não serem pegos. O som da respiração de ambos, no entanto, podia embalar uma festa, tamanho o barulho e o batimento. Tum, tum, tum... Se aproximaram instintivamente um do outro. Chegara, enfim, a hora. Tum, tum, tum... Ele levou sua mão até o rosto dela, e nessa hora aconteceu: pique um, dois, três!!! Foram descobertos.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (14)

Eles só precisaram de alguns poucos minutos para quebrar o gelo e, sobre a água escorrida, marcar o derradeiro encontro. Seria na praça, sem dúvidas. Onde mais um casal de apaixonados pode selar compromisso, senão sob a benção do sol, da sombra, do vento, do cheiro de pipoca doce e do som de crianças brincando felizes e sem tempo marcado, tudo isso no mesmo canto? Combinaram na praça, e certamente sabiam, de antemão, até o banco do “sim”. Isso já havia sido acertado tantas vidas antes... ah, se havia! Porque amor como aquele não era de agora, nem de mês passado, bem menos do ano que se foi. Era amor de sempre. A praça era o detalhe, e ela pediu que ele levasse o beijo prometido. Não um beijo comum, entre duas bocas, mas um beijo de língua, gosto e mãos, um beijo de sonho e de cor púrpura. Um beijo quase inimaginável, não fosse o amor uma linguagem única dos dois, que tudo explicava, até o inexplicável. Não era preciso falar, descrever, sequer conceber. Era apenas o beijo dos dois. Dele para ela, porque o beijo veio dele; e ela o aceitou como aceitou o amor, entrando sem bater. O beijo veio dele, foi morar nela, e dos dois tomou posse. Onze e meia da manhã, na praça. Estava marcado. Ele a queria de cabelos soltos, e acreditava piamente que na hora do “sim” o vento seria parceiro, ajudando-o a acariciá-los em um movimento de vai-e-vem eterno. Ela ansiava por encontrar o sorriso dele, um porto-seguro de seus sentimentos. “Ele vai gostar”, acreditava ela, num mantra do bem. “Ela me quer”, orava ele, esperando pelo encontro. Onze e meia, na praça. Ele jamais atrasaria, ela preferiu acordar bem cedo. Onze e meia, na praça, no banco do “sim”. Um dia, onde não haveria distância e um mar entre os dois...   

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (13)

Ela trabalhava para aquela família fazia uns 55 anos. Chegou lá com menos de dez, levada pela madrinha, para lavar pratos, varrer a casa e limpar os banheiros. Tanto tempo depois, e agora dona de dores lombares, artrose no joelho, quatro dentes a menos e unha encravada em ambos os pés, assumiu o ofício de babá. Ou simplesmente “Bá”, como a menina a chamava. Era um tal de “Bá, eu quero biscoito”, “Bá, cadê meu mate?”, “Bá, o Henriquinho me bateu”... “Bá, Bá, Bá”... “Aiiiii, socorroooooo!!!!!” - esse era o grito que seu coração desejava deflagrar, mas Bá apenas respondia, todas as vezes que solicitada, o mesmo lamento: “já vou, meu bem”. E toma “Bá” para cá e “já vou, meu bem” para lá, o dia todo. Dia? O dia, a tarde e a noite todinha também, isso quando a menina não tinha pesadelos de madrugada. Um suplício para aquela negra cansada de guerra. Dia desses de brincadeira na praça, a concentração de Bá sobre a menina foi interrompida por uma voz. Um susto, aliás. “Eu vejo sua dedicação e fico comovida. Vem trabalhar lá em casa. Vou ter meu segundo filho, preciso de alguém como você”. Bá ficou sem graça e desconversou. Agradeceu e inventou uma desculpa qualquer, daquelas que nem criança de nove anos engole. Dois dias depois, mais uma vez na praça, Bá recebe outro convite, de uma outra senhora. E quer saber? Foram três convites, de três famílias diferentes, hein? Com direito a folga no final de semana inteiro! Mas quem disse que ela ficou orgulhosa, toda toda? Ficou foi muito tímida, e achando que havia feito algo de errado. Como se traísse sua patroa. E a mãe de sua patroa. E a mãe da mãe de sua patroa. Três gerações a quem serviu a vida toda. Bá recusou as ofertas e passou a evitar dar ouvidos a quem quer que fosse, quando levava a menina para a praça. Não entendia direito por quê dos convites; afinal aquelas senhoras nem a conheciam, como pode? Sua alma já estava acostumada: “já vou, meu bem”. Para que mexer?

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (12)

Todos os dias, o padre passava pela praça no mesmo horário. Arrastava consigo o sacristão e três coroinhas, muito novinhos, e agia sempre da mesma forma: ia de grupo em grupo para divulgar a missa de logo mais. Para uns, oferecia doces palavras; para outros, só faltavam os impropérios... O jeito de convocar as ovelhas para a igreja dependia de sua lista de presença na mesma: candura para os que cumpriam com o dever de ouvir a palavra de Deus, porrada nos demais. E assim acontecia, todas as tarde, de domingo a domingo. Casais de namorados, crianças e adolescentes, jogadores de buraco, biriteiros até, todos já estavam acostumados com o couvert de sermão do padre. Mas naquele dia, o padre não veio. Ocupados com seus afazeres – e as vezes nem tanto - muitos poderiam, até, não perceber a falta do padre, se isso não tivesse se repetido no dia seguinte. E no terceiro também. No quarto, já foi um Deus nos acuda, porque não se falava em outro assunto senão a ausência do padreco na praça. O que será que aconteceu? Será que Deus chamou seu representante para um papo sem fim? “Patria meretricis vita?” (estaria o padre puto da vida, na língua do Senhor). Ninguém sabia, e o Diabo reinou na área em forma de fofoca. O padre quebrou a perna escorregando no quiabo; abandonou a batina porque ganhou na mega; se engraçou com a mulher do delegado; quanto mais cabeluda a justificativa, mais força tinha a fofoca... ahn, chifrudo dos infernos... O fato é que no quinto dia, o padre enfim apareceu. Com o sacristão e os mesmos três meninos novinhos, seguindo-os no seu roteiro da fé. Deu bronca em uns, abençoou outros e a todos sussurrou: mesmo os bem aventurados têm diarreia.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (11)

Eles marcaram de se encontrar do lado esquerdo do chafariz. Mas se esqueceram de combinar a partir de qual perspectiva o esquerdo seria, de fato, o esquerdo. E a praça estava lotada. Claro que ele veio por um lado, ela por outro. E o esquerdo de um passou a ser o direito de outro. Ou vice-versa, vá saber... Tinha de tudo um pouco, só não tinha era paz e sossego. Bum, bum, paticumbum, prugurundum... o som da bateria tornava o celular apenas uma preocupação do tipo espero-que-não-me-furtem. Como esse encontro aconteceria? Eles acreditaram tanto que se achariam fácil e naturalmente, que se esqueceram de descrever suas fantasias. Ele chegou a comentar, assim, por alto, que todo ano saía de diabinho. Ela apenas riu e perguntou se ele era “do mal” – mas deixou claro que parecia ser um anjo. Já haviam visto inúmeras fotos um do outro. Webcam, só duas vezes, e mesmo assim, por poucos minutos. “Me sinto mal”, justificava ela. O fato é que no meio de tanta gente, de piratas, Minnies, coelhinhas, soldados, super-heróis, mulheres maravilhas (e maravilhosas) e inúmeros personagens mais, como se achar? Como tornar o encontro virtual, enfim, em um encontro presencial? Só um milagre para resolver o imbróglio. Ao som de um samba-enredo daqueles que todos sabem o refrão, mas ninguém canta a música inteira, um anjinho, de auréola purpurinada e asas de algodão, se vira para a diabinho, de short meio grande demais para uma criaturinha dos infernos, e sugere convertê-la para o bem. Ela ri. Ele oferece uma cerveja. Ela diz que não bebe, mas que um refri cairia bem. Eles dividem uma coca e se beijam. Nem tempo houve para ele contar que gostava mesmo era de se fantasiar de diabo, mas que havia optado pelo anjo para agradar a uma pessoa. Tampouco ela conseguiu dizer que não se sentia confortável como uma capetinha, mas que não queria passar por santa para um determinado rapaz.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (10)

Foi um Deus nos acuda quando ele entrou na praça, assim, como um cometa Halley, um jumento desembestado, um cabeção de nego daqueles que estouram rapidinho... Veio de boca aberta, praticamente babava ódio, dentes afiados, cara de amigo algum. Corria pra cá e pra lá, sem qualquer sentido geográfico, senão para confundir suas presas. E latia alto, como se gritasse que aquele pedaço era dele. E pelo visto, era mesmo. Porque quem pôde tomou suas providências: uma mãe fechou a portinha escangalhada do parquinho, dois garotos interromperam a partida de futebol numa emocionante disputa de pênaltis, feito Fla-Flu que valia o troféu da liga nacional, o sorveteiro congelou tal qual uma estátua, as babás interromperam o papo regado a gargalhadas e a ofensas às patroas... enfim, o clima mudou. E ele se aproveitou do feito, correndo em círculos, com paradas triunfais, de peito estufado e rabo ereto feito espeto de churrasco. Olhou em volta, e rosnou para um senhorzinho, que teve a petulância de seguir caminho com uma bengala de madeira, com ponteira de ferro e manopla de metal, imitando a face de um cavalo, mas que bem podia ser uma arma de guerra, não podia? Olhou de novo, ficou satisfeitíssimo de ver o senhorzinho recolher a bengala e, a exemplo do sorveteiro, também virar estátua, e achou que aquela era a hora: o Chihuahua marchou até a árvore de sempre, fez seu pipi sossegado e rumou sabe-se lá para onde, para alívio de todos.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (9)

Você lembra do seu primeiro beijo? Bem, o que me interessa saber, de verdade, é se você lembra bem do seu primeiro beijo, com detalhes... Do meu, lembro como hoje. Sabor de pipoca doce, muito caramelizada. E com uma pitada de canela, se meu olfato não me engana. Eu estava na praça. Ela também. Quando a vi, de jardineira jeans e camiseta verde, meu coração pegou a primeira condução para a boca. E ameaçou pular para o chão, caso não me aproximasse dela. Eu disse praça? Eu estava era no espaço. Não via absolutamente nada na minha frente, a não ser ela. Ela e as estrelas. A lua, ela e as estrelas. A lua, ela, as estrelas e uma nuvem negra gigantesca e assustadora, dona de raios e trovoadas mil, que me intimava a congelar. Uma luta entre o medo e o coração. Um duelo de espadachins experientes, cada qual defendendo seu clã... um, o clã do amor, o outro, o clã da timidez. Uma luta feroz; achei que não sairia vivo dali, senão por um detalhe. Ou melhor, uma voz, uma voz doce, delicada e encantadora. “Oi, sabia que ia encontrar você aqui”. Não consegui falar nada diferente de um assustado “é?”. E ela: “Claro. A gente se encontrou a semana toda, porque hoje não se encontraria?”, riu, menos debochada e mais convidativa. Depois disso, eu só consigo lembrar do cheiro de pipoca doce caramelizada saindo da panela do pipoqueiro, com pitada de canela. E da respiração dela. Disso me lembro muito bem.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (8)

Praça é lugar de encontros e desencontros. Às vezes, nem um, nem outro.

- Desculpas, mas você não é prima do Jorginho?
- Jorginho?
- Sim, Jorginho, Jorginho do abacate.
- Abacate?
- Só existe um Jorginho do Abacate. É que ele tem mania de..., você sabe, abacate, verde, consistência molenga... depois de comer... argh!
- Jorginho, um magrela juramentado, de papel passado no cartório?
- Esse! Isso aí! Então você o conhece, né? É prima dele, né?
- Não. Mas alguém que é conhecido como abacate porque toda vez que come um pouco mais, bem, você sabe... só pode ser magro toda vida.
- Então você não é prima dele... que droga...
- Sou nada. Mas você não me é estranho... Você mora no oitavo andar do 220? Dono daqueles seis gatos, dois cães, um jabuti, dois hamsters e um papagaio?
- Esse deve ser Noé, não? Desculpas, mas nem moro aqui.
- Não? Mora onde?
- Sou de Jundiaí.
- Caramba, conheço um Jorginho de Jundiaí!!! Mas ele é bem gordo, tanto que o chamam de Jorginho Melancia.
- Que engraçado... Mas a gente não se conhece e nem tem alguma referência em comum...
- É mesmo. Só temos um amigo de mesmo nome, mas que são o oposto um do outro.
- É... vamos comer uma sala de frutas?
- Vamos, mas sem abacate, porque detesto...

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (7)

- Tem de quê, moço? – pergunta, quase angelicalmente, o ruivo com sardas para dar, vender, emprestar, alugar, doar, esconder e... ainda sobra alguma coisa.
- Uva, coco, abacaxi, limão, morango, chocolate, chocolate branco, doce de leite, leite condensado, coco queimado... hum, deixa ver... cereja, creme, groselha, banana e o último de creme holandês – responde o Silvio Santos do picolé.
- Tem de açaí? – contrataca o moleque, com uma nota de cinquenta reais na mão.
- Não, açaí a gente nem fabrica – informa o sorveteiro.
- Então, quero de tangerina – decide o sardento.
- Tangerina já acabou logo cedo, o pessoal adora – sorri.
- Então... deixa ver... tem de quê mesmo? – faz cara de esquecido.
- Uva, coco, abacaxi, limão, morango, chocolate, chocolate branco, doce de leite, leite condensado, coco queimado, cereja, creme, groselha, banana e o último de creme holandês – repete.
- Ah,tá.... me dá de brigadeiro – escolhe.
- Não lembro de ter lhe falado que tenho brigadeiro, não é?
- Ahn, desculpa... quais são os sabores mesmo? – provoca, sorriso no canto da boca.
- Uva, coco, abacaxi, limão, morango, chocolate, chocolate branco, doce de leite, leite condensado, coco queimado, cereja, creme, groselha, banana e o último de creme holandês.
- Hum, tá difícil escolher, gosto de quase todos. Tá bem, quero de goiaba.
- Você ta brincando comigo? Você sabe que não tem de goiaba – desafia o sorveteiro.
- Caramba, você tem razão. Desculpa. Me fala uma última vez os sabores que você tem?
- Uva, coco, abacaxi, limão, morango, chocolate, chocolate branco, doce de leite, leite condensado, coco queimado, cereja, creme, groselha, banana e o último de creme holandês. Só esses, nenhum outro, tá?
- Então eu quero de creme holandês.

O sorveteiro abre a tampa da carrocinha, procura daqui, procura dali, dá um suspiro, reclama do preço do gelo seco e, finalmente, acha o picolé, o último picolé de creme holandês.

- Creme holandês, né? – confirma ele.

O ruivinho faz sim com a cabeça, estica o braço com a nota de cinquentinha, mas quando começa a salivar, toma um susto: o sorveteiro lhe mostra o picolé, tira o papel, dá uma lambida, outra, e informa ironicamente:

- Creme holandês acabou!

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (6)

O vendedor de picolés cismou que naquela segunda-feira venderia mais do que a féria de todo o final de semana. Avisou à patroa que sairia de casa às 4:30h, com tempo hábil para pegar o carrinho e as mercadorias no depósito e chegar triunfalmente na praça logo cedo. “Mas homi de Deus, da onde você tirou essa ideia maluca de que vai vender tanto picolé assim, em plena segunda-feira? Você acha que às sete da matina vai encontrar na praça um monte de crianças pedindo picolés pras mães?”, questionou sua esposa. O sorveteiro já tinha traçado seu plano de marketing. Passou o domingo todo colado à TV, em companhia de Faustão e do Zeca Camargo, rabiscando fórmulas, desenhos e frases em umas folhas sem pauta. Bastava alguém chegar perto, a mulher, os filhos e até Michel Teló, o vira lata, que ele cobria os escritos, protegendo-os como se fossem documentos secretos do Papa. Quando deu dez da noite, rezou um terço, escovou os dentes, beijou os meninos, e disse para ela: “Já vou me deitar, porque amanhã cedíssimo me levanto um cara rico”. Virou-se para a esquerda, engatou o ronco e só mudou de posição as quatro da manhã, com o barulho do despertador. Fez tudo o que bolou, mas chegou em casa, de noite, sem o dinheiro. Vendeu quase nada. “Viu? Você parece que tá ficando doido...”, caçoou a mulher. Com um sorriso no cantou da boca, falou para ela: “Amanhã enriqueço”. Quieto, pegou seu manual, o folheou e releu o capítulo 2: “plano infalível para evitar dona encrenca nas noites de segunda”.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (5)

Procurava alguma coisa, mas parecia que nem ele mesmo sabia o quê. Olhava para os lados, cruzava a praça de ponta a ponta, parava ora aqui, ora ali... e a cara de dúvida era a mesma, interrompida por caretas pontuais. Percebi o seu movimento e logo aportei minha atenção ali. Que divertido! Minha curiosidade, entretanto, alcançou rapidamente os graus aceitáveis da escala Richter e, em breve, arrisca explodir em um terremoto de perguntas: o que será que ele procura? Será que vai achar? Será que ele sabe o que procura, realmente? Teria perdido algo? A curiosidade vira coceira e eu não consigo mais sequer pensar no que irei almoçar, daqui 15 minutos, porque estou preso ao rapaz-que-perdeu-sabe-se-lá-o-quê-na-praça. Acompanho todos os seus movimentos, meus olhos dançam conforme os seus passos, ora lentos, ora apressados, e, somente depois de algum tempo, me dou conta: agora, ambos procuramos alguma coisa perdida. Virei seu parceiro, sofro junto dele e estou decidido a interrompê-lo para oferecer meus préstimos. Me levanto, caminho em sua direção, mas antes que chegue a uma distância razoável para lhe falar, ouço seu grito vitorioso: “yeah, consegui o sinal da internet do meu celular”!

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (4)

Sabe aquela hora quando todos gatos são pardos? Hora e meia depois, ele decidiu cruzar a praça, fugindo de uma insônia que torturava-o no calor de seu quarto. Acreditou piamente que iria tomar conta do espaço, sem viva-alma para lhe competir a atenção do nada. Calçou as havaianas, a bermuda vestiu ao contrário, aéreo que estava, e optou por uma camiseta com o desenho desbotado de Che Guevara. Sim, ele ainda tinha essa camiseta, e fazia questão de costurar ele mesmo os buracos, receoso da promessa da mãe, de tornar o que chamava de pano de chão em fato. Olhou para um lado, para outro, chegou a parar nos balanços, até ensaiou empurrar um amiguinho imaginário que, aos 26 anos, seria uma vergonha dar vida. Riu de si e pôs se a caminhar, crente que encontraria criaturas da noite, quem sabe um rato, ou mesmo um gato preto. Mas encontrou foi ela. Olhar perdido, e havaianas da mesma cor – brancas.

- Boa noite – arriscou.
- Bom dia – ela devolveu. A entonação soou como música, e o sorriso, quadro do Louvre.

Acabaram no balanço. Há quem acredite que não: começaram no balanço.

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (3)

- Par – quase grita o pequeno ruivo, com incontáveis sardas.
- Eu quem quero par – engasga seu oponente, branco feito areia de praia.
- Mas eu falei primeiro – vangloria-se o ruivinho.
- Dane-se. Eu também quero par – encara o branquelo, segurando a bermuda, que insiste em cair.
- Assim não vale. Eu fui o The Flash! – evoca um.
- Minha mãe vive dizendo que os últimos serão os primeiros. Ou que quem ri por último, ri melhor. Então, eu sou par. E vamos logo com esta disputa – responde o outro.
- Quer saber?
- Não, não quero. Tenho raiva de quem sabe... e não quero mais brincar!
- Eu vou te....
Eles são interrompidos pelo pretinho, com cara de Pelé:
- Gente, gente, vamos jogar pique. Zerinho ou ummmmmmm!!!

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (2)

Ele é moreno, alto e está começando a ficar forte. Passa algo no cabelo para encontrar aquele tom dourado que reluz. Usa sandálias, bermuda de surfista e camiseta, que anuncia a enorme tatuagem que começa no braço e termina no meio das costas. Caetano o chamaria pela alcunha de menino do Rio, fosse ele destas bandas. Gosta de surf music – seja lá o que isso for – e sente medo de livros com mais de 20 páginas. Ok, gibi tudo bem. Ela é baixinha, não encontra roupa com tanta facilidade e tem uma coleção de espinhas. Uma delas, quase na ponta do nariz, é de estimação, mas faz a alegria das crianças, que a chamam de bruxa. Não se mete a usar roupa apertada, quase não fala gírias. Se diz ‘temente a Deus”. Ele caminha de uma forma naturalmente apressada. Ela se esforça para dar passos largos, mas desiste rapidamente. Ele cantarola alguma coisa, ela afina a sintonia no ouvido para escutar. Ele tchum, ela tcham; ele pá, ela pum. Eles se esbarram. Ela olha, de cima a baixo, ele nem aí...

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (1)

Diálogo entre o vendedor de sorvete e o vendedor de acarajés, no meio da praça:

- E aí, meu rei... me troca 50 reais?
- Tá de sacanagem comigo, mermão? Se já tivesse faturado 50 contos, dona encrenca ficava em casa me esperando e eu ia era ser feliz na rua...
- E você ia gastar o dinheiro todo, é?
- Não, claro que não. Deixava o da passagem... o resto, investia numa empregada do 56, da Rua da Catete. Vale cada centavo....
- Vixe, e o dinheiro da feira?
- Não é feira, mermão, é féria. Aliás, férias. No plural, férias da patroa lá de casa. É do que eu preciso!
- Pois então vou trocar o dinheiro em outra banca. Porque é a tal empregada do 56 que ta lá, saboreando um acarajé bem quente. Não sei quem é mais quente, o acarajé, ela ou o calor que tá fazendo estes dias....
- Pera, pera, mermão, eu troco a grana...