PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (11)
Eles marcaram de se encontrar do lado esquerdo do chafariz.
Mas se esqueceram de combinar a partir de qual perspectiva o esquerdo seria, de
fato, o esquerdo. E a praça estava lotada. Claro que ele veio por um lado, ela
por outro. E o esquerdo de um passou a ser o direito de outro. Ou vice-versa,
vá saber... Tinha de tudo um pouco, só não tinha era paz e sossego. Bum, bum,
paticumbum, prugurundum... o som da bateria tornava o celular apenas uma
preocupação do tipo espero-que-não-me-furtem. Como esse encontro aconteceria?
Eles acreditaram tanto que se achariam fácil e naturalmente, que se esqueceram
de descrever suas fantasias. Ele chegou a comentar, assim, por alto, que todo
ano saía de diabinho. Ela apenas riu e perguntou se ele era “do mal” – mas
deixou claro que parecia ser um anjo. Já haviam visto inúmeras fotos um do
outro. Webcam, só duas vezes, e mesmo assim, por poucos minutos. “Me sinto
mal”, justificava ela. O fato é que no meio de tanta gente, de piratas,
Minnies, coelhinhas, soldados, super-heróis, mulheres maravilhas (e
maravilhosas) e inúmeros personagens mais, como se achar? Como tornar o
encontro virtual, enfim, em um encontro presencial? Só um milagre para resolver
o imbróglio. Ao som de um samba-enredo daqueles que todos sabem o refrão, mas
ninguém canta a música inteira, um anjinho, de auréola purpurinada e asas de
algodão, se vira para a diabinho, de short meio grande demais para uma
criaturinha dos infernos, e sugere convertê-la para o bem. Ela ri. Ele oferece
uma cerveja. Ela diz que não bebe, mas que um refri cairia bem. Eles dividem
uma coca e se beijam. Nem tempo houve para ele contar que gostava mesmo era de
se fantasiar de diabo, mas que havia optado pelo anjo para agradar a uma
pessoa. Tampouco ela conseguiu dizer que não se sentia confortável como uma capetinha,
mas que não queria passar por santa para um determinado rapaz.
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