sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (11)

Eles marcaram de se encontrar do lado esquerdo do chafariz. Mas se esqueceram de combinar a partir de qual perspectiva o esquerdo seria, de fato, o esquerdo. E a praça estava lotada. Claro que ele veio por um lado, ela por outro. E o esquerdo de um passou a ser o direito de outro. Ou vice-versa, vá saber... Tinha de tudo um pouco, só não tinha era paz e sossego. Bum, bum, paticumbum, prugurundum... o som da bateria tornava o celular apenas uma preocupação do tipo espero-que-não-me-furtem. Como esse encontro aconteceria? Eles acreditaram tanto que se achariam fácil e naturalmente, que se esqueceram de descrever suas fantasias. Ele chegou a comentar, assim, por alto, que todo ano saía de diabinho. Ela apenas riu e perguntou se ele era “do mal” – mas deixou claro que parecia ser um anjo. Já haviam visto inúmeras fotos um do outro. Webcam, só duas vezes, e mesmo assim, por poucos minutos. “Me sinto mal”, justificava ela. O fato é que no meio de tanta gente, de piratas, Minnies, coelhinhas, soldados, super-heróis, mulheres maravilhas (e maravilhosas) e inúmeros personagens mais, como se achar? Como tornar o encontro virtual, enfim, em um encontro presencial? Só um milagre para resolver o imbróglio. Ao som de um samba-enredo daqueles que todos sabem o refrão, mas ninguém canta a música inteira, um anjinho, de auréola purpurinada e asas de algodão, se vira para a diabinho, de short meio grande demais para uma criaturinha dos infernos, e sugere convertê-la para o bem. Ela ri. Ele oferece uma cerveja. Ela diz que não bebe, mas que um refri cairia bem. Eles dividem uma coca e se beijam. Nem tempo houve para ele contar que gostava mesmo era de se fantasiar de diabo, mas que havia optado pelo anjo para agradar a uma pessoa. Tampouco ela conseguiu dizer que não se sentia confortável como uma capetinha, mas que não queria passar por santa para um determinado rapaz.

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