PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (19)
Uma tarde na praça, entre balanços, gangorras e piques, não
é completa sem um lanchinho. Era o que repetia, pelos corredores da casa, a mãe
de Karina, que sempre mandava um pequeno farnel, com bolo, alguma qualidade de
fruta, cortadinha em cubos, e um suquinho de caixinha, quando sua filha ia
brincar com as amigas na praça. Ela era daquelas mães que acham que os filhos
sempre estão com fome ou frio, sabe como é? E tome lanchinho para cá e casaquinho
para lá. Se não bastasse, também não confiava nas “atrações guolseimicas” que a
praça oferecia. Já chamou o Seu Jorge, do algodão doce, de “mancomunado com o
dentista”, acha que a Bete frita suas coxinhas e risoles com o mesmo óleo
comprado no mês passado e nem poupa os picolés de Pretinho, porque na padaria
custam um pouco mais baratos. Da mesma forma que levava seu conjuntinho de
tapewares, devidamente arrumados e preenchidos, Karina era obrigada a carregar
uma sacolinha com uma blusinha de manga, porque no final da tarde sempre podia
bater um vento mais forte, e antibióticos estavam pelo olho da cara, era o que
repetia a mãe da menina. A sorte dela era que o rigor de sua mãe com lanches e
vestes não se aplicava à companhia propriamente dita. Karina ia sozinha para a
praça, afinal já tinha nove anos, e sabia muito bem atravessar as ruas quase
desertas de carros, que cruzavam o caminho de sua casa para a praça. Ia só e
voltava feliz, e sempre encontrava a mãe ocupada, sem tirar os olhos de seus
afazeres domésticos, perguntando, em alto e bom som, se comera o lanche e
vestira a camisa de manga. Karina dizia que sim, e entregava os tapewares
vazios e a camisa suja. Só não contava que trocava o farnel por um dos quitutes
da Bete e que a blusa sempre era usada em brincadeiras como cabra-cega ou pique
bandeira. Isso ela não contava de jeito algum.
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