sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (17)

Ela era uma espécie de rainha do pedaço. Um xodó. Era paparicada por todos, do sorveteiro brincalhão ao mal humorado vendedor de algodão doce (como se coubessem mau humor e algodão doce numa mesma pessoa). Era gorda, peluda, tinha bigodes, até, e olhos esbugalhados. Mas não havia quem a achasse feia. Novinha, sim, uma adolescente ainda, mas era dona de si. Já havia até sido coroada rainha de bloco de carnaval, embora recusara a coroa gentilmente e fora embora da praça, pois detestava bumbos e repeniques. Ganhava doces, afagos e apelidos: “fofa”, “minha menina” e “goducha” eram os mais repetidos. Brincava com as crianças, era enturmada com os adolescentes e fazia o maior sucesso entre os adultos, principalmente os mais velhos. Tinha um senhor que se recusava a jogar canastra sem colocá-la no colo, no reparte das cartas. Dizia que dava sorte, acredita?  Pois ela reinou assim, por muito tempo, correndo aqui, esfregando o corpo peludo ali, latindo baixinho e fazendo balé com o rabo comprido e preto feito jabuticaba. Não tinha outra cadela que tivesse vida melhor, duvido que tinha. Mas tudo que reluz tem lá sua sombra... e o dia do juízo final dela chegou finalmente. A praça foi invadida por uma ratazana enormeeeee, peluda e gorda como ela, e dona da unanimidade geral e irrestrita: era horrível e metia medo em todos. Mas “goducha” tinha no DNA o ódio aos ratos, iria colocá-la para correr com o rabo entre as pernas – ou sem rabo, o que seria muito melhor. E todos acreditaram que a ratazana teria seus dias contados e que partiria dessa para uma melhor, quando desse de cara com uma inimiga mortal. Pois bem, não foi bem isso que aconteceu. “Fofa” correu da raia, tirou o time de campo, disse que não queria mais brincar, arregou, enfim, não cumpriu com seu instinto animal. Ao contrário, levou uns tapas da rata dos infernos, para não se meter à besta e não cruzar mais seu caminho. Sorte de uma gata serelepe, que mal chamava a atenção, tinha o pelo encardido, e viva das sobras de “minha menina”. Ela sim, deu um jeito bem dado na ratazana, e ainda a mostrou derrotada em público, porque de boba essa gata não tinha era nada. Em pouco tempo, começaram a chamá-la de “fofa”, “minha menina” e “goducha”. E nos dias de hoje, até um senhor não reparte as cartas no jogo de canastra, sem antes passar a mão esquerda em seu pelo, agora sedoso e cuidado.

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