PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (24)
O piquenique foi combinado com uma semana de antecedência. E
os convidados receberam a expressa determinação de permanecerem calados sobre o
evento, para que presenças indesejáveis fossem evitadas a qualquer custo. Se
queriam falar entre si, que o fizessem por Código Morse, sinais de fumaça ou
mesmo por telepatia. Mas por palavras, como “bolo de cenoura com chocolate”, “talheres
descartáveis”, “guardanapos de papel” e “sanduichinhos de queijo com presunto”,
nem pensar! Os rapazes ficaram responsáveis pelas bebidas. Mas foram
devidamente proibidos de comprar cerveja e outros líquidos que passarinho não
gosta. “É piquenique, e-n-t-e-n-d-e-u?”, repetiam as meninas, que deveriam
levar doces e salgados. Bem, é claro que nem todos seguiram as regras do jogo,
porque não seguir as regras do jogo é uma regra da adolescência. Teve gente que
falou do piquenique até para as paredes da escola, teve menina que levou
bebida, menino que levou doce, e aqueles que levaram apenas o estômago vazio...
Mas no horário marcado, estavam todos lá, na praça, com bolsas, sacolas e
disposição para ali ficar a noite toda. Sim, era um piquenique noturno, porque
de dia tem sol, tem criança jogando bola, carrinhos de bebê estacionados por
todos cantos, e não tem a lua, o silêncio, e o charme de passar madrugada
adentro juntos. Estavam todos acomodados, quando alguém sacou um violão. Seria
um piquenique perfeito, senão por um detalhe: a aniversariante não havia
chegado. O motivo pelo qual o piquenique foi marcado, a produtora-chefe e
idealizadora do evento, aquela que traria o bolo e as velinhas... essa
justamente faltou. E começou uma discussão tremenda sobre o que fazer, então. Alguém
sugeriu uma assembleia, com votação e palavra de ordem, mas foi vaiado. Outra
propôs o adiamento do evento, mas levou sanduichinho na cabeça. E um terceiro
gritou, a plenos pulmões, que todos deveriam buscar a aniversariante em casa.
Foi ouvido, aplaudido, e seguido, numa passeata pró-aniversariante. Foi o
primeiro piquenique da estória, que foi marcado na praça, mas que aconteceu,
mesmo, foi num play de um prédio...
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