sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (23)

Ele tinha 16 anos, ela dois a mais. Ele, um menino da zona sul do Rio de Janeiro, ela, do interior. Encontraram-se e amaram-se o quanto puderam, até que ela viajou para o exterior. Uma viagem sem passagem de volta, todas as roupas e álbum de fotos da família nas malas. Levou, também, o coração e as esperanças dele consigo. Era como se o mundo fosse se acabar: se não bastasse ser uma pessoa extremamente sensível, ele tinha alma de poeta e sofreu feito gente grande. Acreditou piamente no amor, mas descobriu seu lado mais perverso, logo na primeira vez que seu coração bateu diferente e definitivo por uma mulher. Outros amores vieram, a maturidade idem, a falta de informação parecia ter transformado tudo em um sonho de adolescência, quando se reencontraram pelas redes sociais. Trocaram e-mails tímidos, mas carinhosos, como se tivessem cuidado e um respeito exagerado um com a lembrança do outro. “Posso te telefonar?”, perguntou, em um e-mail sem título. Ele estava na praça, quando ela ligou. Não ficou mudo, mas escondeu o choro em risadas sem sentido. E ela estava ainda mais doce. “Estou embarcando para o Brasil depois de amanhã. Vou ao Rio resolver problemas de família. Ficarei na cidade por dois dias. Quero vê-lo”, avisou, trêmula. Ambos contaram os segundos, até o grande dia. Não se deram conta, mas escolheram como local a mesma praça do último encontro, antes da viagem definitiva e avassaladora. Reencontraram-se com um abraço longo, forte, afetuoso, como se os dedos e os braços buscassem, de cada um, o tempo perdido do outro. E se beijaram. De novo. E mais uma vez. E riram. Trocaram presentes e juras de amor. Resolveram, de comum acordo, não falar do futuro e não questionar o passado. Ou vice-versa. Apenas matar a saudade e fazer viver um amor adormecido, jamais aniquilado. Tantos anos se passaram, mais de trinta verões sem ele viajar para cidade dela, e parece que não se viam há um ou dois meses. Isso pareceu estranho e, ao mesmo tempo, confortador. As quase quatro horas de encontro voaram. Assim como ela, dois dias depois, sem telefonar para se despedir.

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