terça-feira, 19 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (32)


O trovão foi tão forte e demorado, que assustaria até bruxa, se bruxa houvesse ali. Mas uns moleques metidos, mau-encarados e esquisitos pra dedéu, isso tinha sim. E embora também fossem filhos de Deus, bateram palmas e gritaram bis! Eles se vestiam de preto, tinham cabelos compridos, que estavam de mal com o pente e o condicionador fazia era tempo, e conversavam numa língua parecida com o português, mas ininteligível para qualquer um de nós. “Sacumé, o trova, brow?”; gritou um, querendo dizer... e eu sei? O fato é que um segundo trovão, ainda mais forte e demorado, anunciou o temporal que estava por vir, e, àquela altura do campeonato, o povo já tinha ido embora da praça, aos passos largos e reclamações endereçadas a São Pedro, que estragou o lazer de todo mundo. Bem, de todo mundo, não. Os guris permaneceram na praça, e cada cidadão ou cidadã que cruzava a fronteira da esquina mais próxima ganhava palmas e assovios do grupo. O terceiro trovão era de assustar até lobisomem, Saci Pererê e zumbi com sono (a pior espécie deles), e veio acompanhado de pingos grossos, frequentes, mas ainda espaçados. E foi aí que o grupinho fez a festa. Um deles se levantou e começou a dançar freneticamente, soltando uns “uhhu” que marcavam os passos. Outro resolveu lhe acompanhar, era algo semelhante a índios em uma dança da chuva. A praça era deles, e de grandes poças d’água, que começaram a se formar rapidamente, porque neste momento já chovia bem. Eles se divertiam tanto, as gargalhadas molhadas eram tão fortes, que nem perceberam que estavam ilhados. Porque choveu mais e mais, trovejou mais e mais forte, acabou a luz, o vento correu, uma árvore caiu, não havia viva alma por perto, e era impossível sair dali porque quem iria imaginar, um dia, que era preciso ir para a praça levando um bote inflável à tiracolo? Os moleques tremiam de frio, e o que era um espetáculo da natureza se transformou em um pesadelo real. Raios, trovões, chuva forte, vento, que medo! Um deles, viciado em filme de terror, que adorava gargalhar enquanto Chukkyes e Freddyes Krueger jorravam sangue pela tela, lembrou de várias cenas e começou a chorar. O outro ali descobriu Jesus, e começou a rezar. Estava tão nervoso, que nem gíria usou, crê nisso? O fato é que os até então inatingíveis do time de preto, dos cabelos desarrumados, adoradores do mal, se transformaram em carneirinhos desprotegidos, querendo colo de mãe. Até que acabaram, todos eles, um bom tempo depois, debaixo do chuveiro de suas casas. Com direito a condicionador e pente fino.

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