PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (12)
Todos os dias, o padre passava pela praça no mesmo horário.
Arrastava consigo o sacristão e três coroinhas, muito novinhos, e agia sempre
da mesma forma: ia de grupo em grupo para divulgar a missa de logo mais. Para
uns, oferecia doces palavras; para outros, só faltavam os impropérios... O
jeito de convocar as ovelhas para a igreja dependia de sua lista de presença na
mesma: candura para os que cumpriam com o dever de ouvir a palavra de Deus,
porrada nos demais. E assim acontecia, todas as tarde, de domingo a domingo.
Casais de namorados, crianças e adolescentes, jogadores de buraco, biriteiros
até, todos já estavam acostumados com o couvert de sermão do padre. Mas naquele
dia, o padre não veio. Ocupados com seus afazeres – e as vezes nem tanto -
muitos poderiam, até, não perceber a falta do padre, se isso não tivesse se
repetido no dia seguinte. E no terceiro também. No quarto, já foi um Deus nos
acuda, porque não se falava em outro assunto senão a ausência do padreco na
praça. O que será que aconteceu? Será que Deus chamou seu representante para um
papo sem fim? “Patria meretricis vita?” (estaria o padre puto da vida, na
língua do Senhor). Ninguém sabia, e o Diabo reinou na área em forma de fofoca.
O padre quebrou a perna escorregando no quiabo; abandonou a batina porque
ganhou na mega; se engraçou com a mulher do delegado; quanto mais cabeluda a
justificativa, mais força tinha a fofoca... ahn, chifrudo dos infernos... O
fato é que no quinto dia, o padre enfim apareceu. Com o sacristão e os mesmos
três meninos novinhos, seguindo-os no seu roteiro da fé. Deu bronca em uns,
abençoou outros e a todos sussurrou: mesmo os bem aventurados têm diarreia.
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