PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (14)
Eles só precisaram de alguns poucos minutos para quebrar o
gelo e, sobre a água escorrida, marcar o derradeiro encontro. Seria na praça,
sem dúvidas. Onde mais um casal de apaixonados pode selar compromisso, senão
sob a benção do sol, da sombra, do vento, do cheiro de pipoca doce e do som de
crianças brincando felizes e sem tempo marcado, tudo isso no mesmo canto?
Combinaram na praça, e certamente sabiam, de antemão, até o banco do “sim”.
Isso já havia sido acertado tantas vidas antes... ah, se havia! Porque amor
como aquele não era de agora, nem de mês passado, bem menos do ano que se foi.
Era amor de sempre. A praça era o detalhe, e ela pediu que ele levasse o beijo
prometido. Não um beijo comum, entre duas bocas, mas um beijo de língua, gosto
e mãos, um beijo de sonho e de cor púrpura. Um beijo quase inimaginável, não
fosse o amor uma linguagem única dos dois, que tudo explicava, até o
inexplicável. Não era preciso falar, descrever, sequer conceber. Era apenas o
beijo dos dois. Dele para ela, porque o beijo veio dele; e ela o aceitou como
aceitou o amor, entrando sem bater. O beijo veio dele, foi morar nela, e dos
dois tomou posse. Onze e meia da manhã, na praça. Estava marcado. Ele a queria
de cabelos soltos, e acreditava piamente que na hora do “sim” o vento seria
parceiro, ajudando-o a acariciá-los em um movimento de vai-e-vem eterno. Ela
ansiava por encontrar o sorriso dele, um porto-seguro de seus sentimentos. “Ele
vai gostar”, acreditava ela, num mantra do bem. “Ela me quer”, orava ele,
esperando pelo encontro. Onze e meia, na praça. Ele jamais atrasaria, ela
preferiu acordar bem cedo. Onze e meia, na praça, no banco do “sim”. Um dia,
onde não haveria distância e um mar entre os dois...
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