sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (14)

Eles só precisaram de alguns poucos minutos para quebrar o gelo e, sobre a água escorrida, marcar o derradeiro encontro. Seria na praça, sem dúvidas. Onde mais um casal de apaixonados pode selar compromisso, senão sob a benção do sol, da sombra, do vento, do cheiro de pipoca doce e do som de crianças brincando felizes e sem tempo marcado, tudo isso no mesmo canto? Combinaram na praça, e certamente sabiam, de antemão, até o banco do “sim”. Isso já havia sido acertado tantas vidas antes... ah, se havia! Porque amor como aquele não era de agora, nem de mês passado, bem menos do ano que se foi. Era amor de sempre. A praça era o detalhe, e ela pediu que ele levasse o beijo prometido. Não um beijo comum, entre duas bocas, mas um beijo de língua, gosto e mãos, um beijo de sonho e de cor púrpura. Um beijo quase inimaginável, não fosse o amor uma linguagem única dos dois, que tudo explicava, até o inexplicável. Não era preciso falar, descrever, sequer conceber. Era apenas o beijo dos dois. Dele para ela, porque o beijo veio dele; e ela o aceitou como aceitou o amor, entrando sem bater. O beijo veio dele, foi morar nela, e dos dois tomou posse. Onze e meia da manhã, na praça. Estava marcado. Ele a queria de cabelos soltos, e acreditava piamente que na hora do “sim” o vento seria parceiro, ajudando-o a acariciá-los em um movimento de vai-e-vem eterno. Ela ansiava por encontrar o sorriso dele, um porto-seguro de seus sentimentos. “Ele vai gostar”, acreditava ela, num mantra do bem. “Ela me quer”, orava ele, esperando pelo encontro. Onze e meia, na praça. Ele jamais atrasaria, ela preferiu acordar bem cedo. Onze e meia, na praça, no banco do “sim”. Um dia, onde não haveria distância e um mar entre os dois...   

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