sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (10)

Foi um Deus nos acuda quando ele entrou na praça, assim, como um cometa Halley, um jumento desembestado, um cabeção de nego daqueles que estouram rapidinho... Veio de boca aberta, praticamente babava ódio, dentes afiados, cara de amigo algum. Corria pra cá e pra lá, sem qualquer sentido geográfico, senão para confundir suas presas. E latia alto, como se gritasse que aquele pedaço era dele. E pelo visto, era mesmo. Porque quem pôde tomou suas providências: uma mãe fechou a portinha escangalhada do parquinho, dois garotos interromperam a partida de futebol numa emocionante disputa de pênaltis, feito Fla-Flu que valia o troféu da liga nacional, o sorveteiro congelou tal qual uma estátua, as babás interromperam o papo regado a gargalhadas e a ofensas às patroas... enfim, o clima mudou. E ele se aproveitou do feito, correndo em círculos, com paradas triunfais, de peito estufado e rabo ereto feito espeto de churrasco. Olhou em volta, e rosnou para um senhorzinho, que teve a petulância de seguir caminho com uma bengala de madeira, com ponteira de ferro e manopla de metal, imitando a face de um cavalo, mas que bem podia ser uma arma de guerra, não podia? Olhou de novo, ficou satisfeitíssimo de ver o senhorzinho recolher a bengala e, a exemplo do sorveteiro, também virar estátua, e achou que aquela era a hora: o Chihuahua marchou até a árvore de sempre, fez seu pipi sossegado e rumou sabe-se lá para onde, para alívio de todos.

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