PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (10)
Foi um Deus nos acuda quando ele entrou na praça, assim,
como um cometa Halley, um jumento desembestado, um cabeção de nego daqueles que
estouram rapidinho... Veio de boca aberta, praticamente babava ódio, dentes
afiados, cara de amigo algum. Corria pra cá e pra lá, sem qualquer sentido
geográfico, senão para confundir suas presas. E latia alto, como se gritasse
que aquele pedaço era dele. E pelo visto, era mesmo. Porque quem pôde tomou
suas providências: uma mãe fechou a portinha escangalhada do parquinho, dois
garotos interromperam a partida de futebol numa emocionante disputa de
pênaltis, feito Fla-Flu que valia o troféu da liga nacional, o sorveteiro
congelou tal qual uma estátua, as babás interromperam o papo regado a gargalhadas
e a ofensas às patroas... enfim, o clima mudou. E ele se aproveitou do feito,
correndo em círculos, com paradas triunfais, de peito estufado e rabo ereto
feito espeto de churrasco. Olhou em volta, e rosnou para um senhorzinho, que
teve a petulância de seguir caminho com uma bengala de madeira, com ponteira de
ferro e manopla de metal, imitando a face de um cavalo, mas que bem podia ser
uma arma de guerra, não podia? Olhou de novo, ficou satisfeitíssimo de ver o
senhorzinho recolher a bengala e, a exemplo do sorveteiro, também virar
estátua, e achou que aquela era a hora: o Chihuahua marchou até a árvore de
sempre, fez seu pipi sossegado e rumou sabe-se lá para onde, para alívio de
todos.
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