sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (25)

Ele parecia nervoso, e isso estava lhe deixando insegura. Desde que começaram a namorar, justamente naquela praça, há dois anos, nunca mais passaram uma tarde sequer no local. Mas ele insistiu tanto que aquele encontro fosse ali, que ela achou bem estranho. Disse que tinha algo a falar, que era importante e que nem sabia como fazê-lo. Lembrou da última briga do casal, não tinha nem dois dias. Ele não queria que fosse embora, mas ela insistiu em dormir em casa. “Meu pai não gosta”, justificou, deixando-o mais chateado ainda. “Você já tem 26 anos, quando vai crescer?”, esperneou ele. Mas o fato é que tudo ali estava estranho. Ele parecia ainda mais nervoso e ela reparou, inclusive, que ele vestira as meias ao contrário. Tentou adiar a conversa. “Preciso ir dormir cedo; não é você quem acorda amanhã antes das seis”, disse, definitiva e buscando um ponto final para a frase, que ele não permitiu. “O dia de amanhã não tem, agora, a menor importância. Importante é o que preciso te falar. Isso, sim, pode te deixar mais zonza que acordar antes do sol”, avisou. Aproveitou para dizer que pensou muito, que já estava decidido, que andava muito insatisfeito, e que não aguentava mais namorar uma “criança”. Relembrou as incontáveis vezes que ela trocou o bem bom com ele pelas ordens do pai - e não foram poucas, não foram poucas vezes mesmo. Disse, pela primeira vez em dois anos, que se sentia magoado dela não permitir, em hipótese alguma, que mantivesse, em sua casa, sequer uma escova de dentes para ela. “Isso me deixa louco”, vociferou. Inflado, e de certa forma aliviado com o início do falatório, começou a elevar o tom da voz, algo que ela sempre detestou. A coisa estava ficando era preta para os dois lados, quando ela resolveu dar um basta. Falou ainda mais alto que ele, deu um murro em seu peito, com as duas mãos, e mandou que ele chegasse aos finalmentes, porque se era para acabar, que terminassem naquele momento, exatamente na hora da primeira lágrima cair de seu olho. “Você tem toda razão!”, concordou, com voz baixa e doce, quem sabe, com medo da reação dela. “Chega de namoro. Quer casar comigo?”, sussurrou ele, olhando no fundo, lá no fundo de seus olhos cheios de lágrimas. “Quer?”.    

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