PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (25)
Ele parecia nervoso, e isso estava lhe deixando insegura.
Desde que começaram a namorar, justamente naquela praça, há dois anos, nunca
mais passaram uma tarde sequer no local. Mas ele insistiu tanto que aquele
encontro fosse ali, que ela achou bem estranho. Disse que tinha algo a falar,
que era importante e que nem sabia como fazê-lo. Lembrou da última briga do
casal, não tinha nem dois dias. Ele não queria que fosse embora, mas ela
insistiu em dormir em casa. “Meu pai não gosta”, justificou, deixando-o mais
chateado ainda. “Você já tem 26 anos, quando vai crescer?”, esperneou ele. Mas
o fato é que tudo ali estava estranho. Ele parecia ainda mais nervoso e ela
reparou, inclusive, que ele vestira as meias ao contrário. Tentou adiar a
conversa. “Preciso ir dormir cedo; não é você quem acorda amanhã antes das
seis”, disse, definitiva e buscando um ponto final para a frase, que ele não
permitiu. “O dia de amanhã não tem, agora, a menor importância. Importante é o
que preciso te falar. Isso, sim, pode te deixar mais zonza que acordar antes do
sol”, avisou. Aproveitou para dizer que pensou muito, que já estava decidido,
que andava muito insatisfeito, e que não aguentava mais namorar uma “criança”.
Relembrou as incontáveis vezes que ela trocou o bem bom com ele pelas ordens do
pai - e não foram poucas, não foram poucas vezes mesmo. Disse, pela primeira
vez em dois anos, que se sentia magoado dela não permitir, em hipótese alguma,
que mantivesse, em sua casa, sequer uma escova de dentes para ela. “Isso me
deixa louco”, vociferou. Inflado, e de certa forma aliviado com o início do
falatório, começou a elevar o tom da voz, algo que ela sempre detestou. A coisa
estava ficando era preta para os dois lados, quando ela resolveu dar um basta.
Falou ainda mais alto que ele, deu um murro em seu peito, com as duas mãos, e
mandou que ele chegasse aos finalmentes, porque se era para acabar, que
terminassem naquele momento, exatamente na hora da primeira lágrima cair de seu
olho. “Você tem toda razão!”, concordou, com voz baixa e doce, quem sabe, com
medo da reação dela. “Chega de namoro. Quer casar comigo?”, sussurrou ele,
olhando no fundo, lá no fundo de seus olhos cheios de lágrimas. “Quer?”.
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