PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (15)
Ambos tinham apenas 13 anos. Se você perguntasse diretamente
a cada um deles sobre suas idades, jamais diriam a palavra “apenas”, conjugada
com o número. Talvez um “já”, quem sabe, com uma voz de auto-confiança forçada,
mas o fato é que se sentiam suficientemente maduros para a viagem que queriam
fazer, juntos: um easy rider pela estrada do amor. Eles queriam namorar,
queriam se chamar de tchuco e tchuca, queriam beijos e suspiros, os primeiros
sarros, a respiração alterada, a excitação fora de hora. Queriam trocar
segredos e planejar o casamento, com dois filhos - um casal - e gatos
espalhados pela casa. Até então, se encontravam na praça, território neutro,
porém superpopuloso no horário da tarde, quando os pais permitiam a saída e nem
lembravam de perguntar o local. Mas diante de tanta gente, amigos inclusive,
como dar o primeiro beijo, em plena praça pública? Se ao menos o prefeito
decretasse que aquela praça era dos apaixonados... mas quem disse que política
existe para nos beneficiar, né? O fato é que tudo isso, e muito mais que pode
caber na cabecinha e no coração apaixonado de um adolescente (e como cabe
coisa, Deus meu!), estava assim, exatamente assim: na cabecinha e no coração,
porque ambos pensavam, sentiam, mas não tinham coragem para dividir o sonho.
Culpavam a praça cheia, quando iam dormir e arquitetavam planos shakespearianos
para o encontro derradeiro. Um já pensou em chegar em um Jaguar vermelho,
tomá-la de assalto, e fugir a 140 km por hora, para o horizonte perdido, onde o
primeiro beijo seria fato. Outra já imaginara ser abruptamente carregada por
ele, que chegaria num cavalo branco de crina longa, galopando, então, para uma
floresta encantada, onde o primeiro beijo seria mágico. Mas, cadê o fato, o
acontecimento, a história? O acaso, no entanto, resolveu dar uma forcinha para
os dois. Naquela tarde, um amigo sugeriu um pique-esconde, todo mundo topou, e
é claro que eles tiveram a mesma ideia: um ia atrás do outro, como quem não
quer nada, para se esconder no mesmo lugar e, finalmente, revelar o que de fato
estava escondido esse tempo todo. E assim aconteceu, já no primeiro
esconde-esconde. Ambos foram parar dentro de um daqueles enormes tubos de
concreto pintado de azul ou vermelho, que serve de brincadeira e de banheiro
para gatos e cães de rua. Um fez “xiiiii” para o outro, com o dedo na frente da
boca, sugerindo silêncio para não serem pegos. O som da respiração de ambos, no
entanto, podia embalar uma festa, tamanho o barulho e o batimento. Tum, tum,
tum... Se aproximaram instintivamente um do outro. Chegara, enfim, a hora. Tum,
tum, tum... Ele levou sua mão até o rosto dela, e nessa hora aconteceu: pique
um, dois, três!!! Foram descobertos.
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