sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (15)

Ambos tinham apenas 13 anos. Se você perguntasse diretamente a cada um deles sobre suas idades, jamais diriam a palavra “apenas”, conjugada com o número. Talvez um “já”, quem sabe, com uma voz de auto-confiança forçada, mas o fato é que se sentiam suficientemente maduros para a viagem que queriam fazer, juntos: um easy rider pela estrada do amor. Eles queriam namorar, queriam se chamar de tchuco e tchuca, queriam beijos e suspiros, os primeiros sarros, a respiração alterada, a excitação fora de hora. Queriam trocar segredos e planejar o casamento, com dois filhos - um casal - e gatos espalhados pela casa. Até então, se encontravam na praça, território neutro, porém superpopuloso no horário da tarde, quando os pais permitiam a saída e nem lembravam de perguntar o local. Mas diante de tanta gente, amigos inclusive, como dar o primeiro beijo, em plena praça pública? Se ao menos o prefeito decretasse que aquela praça era dos apaixonados... mas quem disse que política existe para nos beneficiar, né? O fato é que tudo isso, e muito mais que pode caber na cabecinha e no coração apaixonado de um adolescente (e como cabe coisa, Deus meu!), estava assim, exatamente assim: na cabecinha e no coração, porque ambos pensavam, sentiam, mas não tinham coragem para dividir o sonho. Culpavam a praça cheia, quando iam dormir e arquitetavam planos shakespearianos para o encontro derradeiro. Um já pensou em chegar em um Jaguar vermelho, tomá-la de assalto, e fugir a 140 km por hora, para o horizonte perdido, onde o primeiro beijo seria fato. Outra já imaginara ser abruptamente carregada por ele, que chegaria num cavalo branco de crina longa, galopando, então, para uma floresta encantada, onde o primeiro beijo seria mágico. Mas, cadê o fato, o acontecimento, a história? O acaso, no entanto, resolveu dar uma forcinha para os dois. Naquela tarde, um amigo sugeriu um pique-esconde, todo mundo topou, e é claro que eles tiveram a mesma ideia: um ia atrás do outro, como quem não quer nada, para se esconder no mesmo lugar e, finalmente, revelar o que de fato estava escondido esse tempo todo. E assim aconteceu, já no primeiro esconde-esconde. Ambos foram parar dentro de um daqueles enormes tubos de concreto pintado de azul ou vermelho, que serve de brincadeira e de banheiro para gatos e cães de rua. Um fez “xiiiii” para o outro, com o dedo na frente da boca, sugerindo silêncio para não serem pegos. O som da respiração de ambos, no entanto, podia embalar uma festa, tamanho o barulho e o batimento. Tum, tum, tum... Se aproximaram instintivamente um do outro. Chegara, enfim, a hora. Tum, tum, tum... Ele levou sua mão até o rosto dela, e nessa hora aconteceu: pique um, dois, três!!! Foram descobertos.

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