sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (16)

Eles se conheceram na praça, mais precisamente no tanquinho de areia, que nem existe mais. Ele nem sabia engatinhar, mas ela, danadinha e espevitada desde aqueles tempos, o ensinou. Andaram no mesmo dia, acredita? O pai de um correu para a casa do pai da outra, para contar a novidade, e lá a encontrou, dando passos alegres pela sala recém-reformada. Quando fizeram cinco anos, se separaram pela primeira e única vez: foram três anos sem se verem, porque os pais dela mudaram para uma cidade distante dali uns 450 quilômetros. Quando voltaram, nunca mais se desgarraram. Juraram, séria e apaixonadamente, que morreriam juntos, no mesmo instante e bem velhinhos. Não suportavam a ideia do desencontro. Eles tinham 15 anos e já sabiam que um era feito para a outra. E que a outra nada era sem um. Já casados, ele era marceneiro, e trabalhava na garagem transformada em oficina, no fundo da casa. Assim, não se separavam jamais. Só deixaram de almoçar juntos uma vez na vida matrimonial, e essa mágoa ele trazia consigo até os dias de hoje: foi um almoço de amigas da escola, trinta anos depois de formadas, um encontro proibido para os meninos. Ela chegou a cogitar evitar o compromisso, mas dissera que ia, e faltar com sua palavra lhe deixava doente. Todos os dias, seguiam para a praça exatamente às 16 horas. Ele jogava buraco com os amigos, ela trocava receita com as comadres. Aos domingos, cantavam serestas ao som de três, às vezes quatro violões, e de mãos dadas faziam juras de amor, sem necessidade da palavra. Filhos? O destino não permitiu, e ele jamais aceitara adotar uma criança. Se bastavam, era o que diziam quando o assunto vinha à tona. Um dia, ele apareceu sozinho na praça. Todos estranharam, mas ninguém teve jeito de perguntar o porquê da ausência dela. Talvez tenham ficado com medo da resposta. Ou da reação dele. Até que alguém, muito timidamente, quase se desculpando, perguntou se ela estava bem de saúde. Ele tirou o chapéu, o descansou sobre as pernas, olhou para o vazio, e murmurou: “a vizinha a chamou para mostrar uma foto sua que colocaram nesse tal de feicibuque, e lá está ela, até agora, fuxicando aquilo lá”.

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