PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (33)
Era uma mesa de concreto, com uma pintura de quadrados em
preto e branco no tampo, sugerindo um tabuleiro de damas. E outra, sem a tal
sugestão, servindo para um carteado amigo. Poderiam ser, também, uma garagem de
carrinhos, obstáculos de uma corrida, mesas de piquenique ou mesmo um
banheirinho de totó, depende de quem as usava. Na ocasião, quatro senhores, que
juntos tinham a idade do vampiro Nosferatu, jogavam canastra na mesa que
poderia servir como tabuleiro de damas. Já a mesa que não tinha o tal tabuleiro
pintado estava vazia, até que chegaram mais dois senhores. Agora, a soma da
idade deles dava para distribuir entre Nosferatu e uma de suas esposas. Os dois
sentaram-se à mesa vazia, colocaram sobre ela uma caixa, cheia de peças de dama
e... só quando foram arrumar o jogo perceberam que estavam na mesa errada. Um
olhou para o outro, o outro esperando a iniciativa de um, mas foi um senhorzinho
franzino do carteado quem iniciou a pendenga: “Xiiiii, esse jogo de damas vai
ficar para amanhã. Amanhã!!”, disse, numa voz muito maior que seu corpo, e aos
risos. Ficou engraçado, porque um de seus oponentes, gorducho e de bochechas
rosas, também entrou no bonde da zoação, mas com uma voz fina, estranha ao seu
corpanzil. “E tratem de madrugar, senão o jogo fica para depois de amanhã.
Depois de amanhã”, copiou o colega. Os atletas de damas pareciam não crer no
que ouviam. “Deixa de bobagem. Vamos trocar de mesas e está tudo resolvido”,
contemporizou um deles. “Moleza, todo mundo feliz”, emendou o outro. O que
parecia o óbvio se tornou uma disputa intensa. Um terceiro jogador de canastra
disse que não levantaria dali nem se o Papa argentino pedisse pra sair e
convocasse o cardeal brasileiro para assumir o trono de Roma. Risos de um lado,
reclamação de outro, uma fala mais alta aqui, ainda mais alta acolá e quando se
viu, quem estava jogando damas ou canastra? Os bocós estavam era na maior
discussão, emanando a Constituição, artigos do Estatuto do Idoso, até o Código
de Defesa do Consumidor entrou na estória, sabe-se lá porquê. Isso sem falar no
primeiro palavrão, ainda tímido, que apareceu na roda. E um segundo, um
terceiro, e agora era uma cena proibida para menores. Que confusão! A praça
parecia pequena para eles, pois a briga chegou ao divã de Freud, e foi se
banhar no rio que Heráclito jurava nunca ser o mesmo... se é que era isso aí
que um dos senhorzinhos queria dizer. Quando se deram conta, escureceu. E no
escuro não tem jogo, é hora de tomar sopa e ver televisão com a patroa. Um
olhou para o outro, alguém comentou que o tempo passara rápido demais, e outro
disse que nunca havia se divertido tanto naqueles dias. Saíram os seis da
praça, rindo e felizes. E combinaram que a disputa continuava no dia seguinte.
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