sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (13)

Ela trabalhava para aquela família fazia uns 55 anos. Chegou lá com menos de dez, levada pela madrinha, para lavar pratos, varrer a casa e limpar os banheiros. Tanto tempo depois, e agora dona de dores lombares, artrose no joelho, quatro dentes a menos e unha encravada em ambos os pés, assumiu o ofício de babá. Ou simplesmente “Bá”, como a menina a chamava. Era um tal de “Bá, eu quero biscoito”, “Bá, cadê meu mate?”, “Bá, o Henriquinho me bateu”... “Bá, Bá, Bá”... “Aiiiii, socorroooooo!!!!!” - esse era o grito que seu coração desejava deflagrar, mas Bá apenas respondia, todas as vezes que solicitada, o mesmo lamento: “já vou, meu bem”. E toma “Bá” para cá e “já vou, meu bem” para lá, o dia todo. Dia? O dia, a tarde e a noite todinha também, isso quando a menina não tinha pesadelos de madrugada. Um suplício para aquela negra cansada de guerra. Dia desses de brincadeira na praça, a concentração de Bá sobre a menina foi interrompida por uma voz. Um susto, aliás. “Eu vejo sua dedicação e fico comovida. Vem trabalhar lá em casa. Vou ter meu segundo filho, preciso de alguém como você”. Bá ficou sem graça e desconversou. Agradeceu e inventou uma desculpa qualquer, daquelas que nem criança de nove anos engole. Dois dias depois, mais uma vez na praça, Bá recebe outro convite, de uma outra senhora. E quer saber? Foram três convites, de três famílias diferentes, hein? Com direito a folga no final de semana inteiro! Mas quem disse que ela ficou orgulhosa, toda toda? Ficou foi muito tímida, e achando que havia feito algo de errado. Como se traísse sua patroa. E a mãe de sua patroa. E a mãe da mãe de sua patroa. Três gerações a quem serviu a vida toda. Bá recusou as ofertas e passou a evitar dar ouvidos a quem quer que fosse, quando levava a menina para a praça. Não entendia direito por quê dos convites; afinal aquelas senhoras nem a conheciam, como pode? Sua alma já estava acostumada: “já vou, meu bem”. Para que mexer?

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