PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (13)
Ela trabalhava para aquela família fazia uns 55 anos. Chegou
lá com menos de dez, levada pela madrinha, para lavar pratos, varrer a casa e
limpar os banheiros. Tanto tempo depois, e agora dona de dores lombares,
artrose no joelho, quatro dentes a menos e unha encravada em ambos os pés, assumiu
o ofício de babá. Ou simplesmente “Bá”, como a menina a chamava. Era um tal de
“Bá, eu quero biscoito”, “Bá, cadê meu mate?”, “Bá, o Henriquinho me bateu”...
“Bá, Bá, Bá”... “Aiiiii, socorroooooo!!!!!” - esse era o grito que seu coração
desejava deflagrar, mas Bá apenas respondia, todas as vezes que solicitada, o
mesmo lamento: “já vou, meu bem”. E toma “Bá” para cá e “já vou, meu bem” para
lá, o dia todo. Dia? O dia, a tarde e a noite todinha também, isso quando a
menina não tinha pesadelos de madrugada. Um suplício para aquela negra cansada
de guerra. Dia desses de brincadeira na praça, a concentração de Bá sobre a
menina foi interrompida por uma voz. Um susto, aliás. “Eu vejo sua dedicação e
fico comovida. Vem trabalhar lá em casa. Vou ter meu segundo filho, preciso de
alguém como você”. Bá ficou sem graça e desconversou. Agradeceu e inventou uma
desculpa qualquer, daquelas que nem criança de nove anos engole. Dois dias
depois, mais uma vez na praça, Bá recebe outro convite, de uma outra senhora. E
quer saber? Foram três convites, de três famílias diferentes, hein? Com direito
a folga no final de semana inteiro! Mas quem disse que ela ficou orgulhosa,
toda toda? Ficou foi muito tímida, e achando que havia feito algo de errado.
Como se traísse sua patroa. E a mãe de sua patroa. E a mãe da mãe de sua
patroa. Três gerações a quem serviu a vida toda. Bá recusou as ofertas e passou
a evitar dar ouvidos a quem quer que fosse, quando levava a menina para a
praça. Não entendia direito por quê dos convites; afinal aquelas senhoras nem a
conheciam, como pode? Sua alma já estava acostumada: “já vou, meu bem”. Para
que mexer?
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