PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (6)
O vendedor de picolés cismou que naquela segunda-feira
venderia mais do que a féria de todo o final de semana. Avisou à patroa que
sairia de casa às 4:30h, com tempo hábil para pegar o carrinho e as mercadorias
no depósito e chegar triunfalmente na praça logo cedo. “Mas homi de Deus, da
onde você tirou essa ideia maluca de que vai vender tanto picolé assim, em
plena segunda-feira? Você acha que às sete da matina vai encontrar na praça um
monte de crianças pedindo picolés pras mães?”, questionou sua esposa. O
sorveteiro já tinha traçado seu plano de marketing. Passou o domingo todo
colado à TV, em companhia de Faustão e do Zeca Camargo, rabiscando fórmulas,
desenhos e frases em umas folhas sem pauta. Bastava alguém chegar perto, a
mulher, os filhos e até Michel Teló, o vira lata, que ele cobria os escritos,
protegendo-os como se fossem documentos secretos do Papa. Quando deu dez da
noite, rezou um terço, escovou os dentes, beijou os meninos, e disse para ela:
“Já vou me deitar, porque amanhã cedíssimo me levanto um cara rico”. Virou-se
para a esquerda, engatou o ronco e só mudou de posição as quatro da manhã, com
o barulho do despertador. Fez tudo o que bolou, mas chegou em casa, de noite,
sem o dinheiro. Vendeu quase nada. “Viu? Você parece que tá ficando doido...”,
caçoou a mulher. Com um sorriso no cantou da boca, falou para ela: “Amanhã
enriqueço”. Quieto, pegou seu manual, o folheou e releu o capítulo 2: “plano
infalível para evitar dona encrenca nas noites de segunda”.
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