PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (28)
Ele se arrumava com todo esmero, até mesmo para ficar em
casa. Estava sempre muito bem penteado, a barba feita e perfumado, com a mesma marca
de colônia há 50 anos. Mas para ir para a praça, o que era capricho virava
obsessão. Não aceitava sair com uma camisa que não estivesse mais passada que
os tempos de vovó menina, trocava o lenço diariamente, e mandava lustrar os
sapatos duas vezes, porque achava que Maria não o levava a sério, e cumpria a
tarefa de qualquer jeito. Repetia, dia após dia, que passeio na praça era
“coisa séria e para profissional”. Maria ria, e a intimidade de tantos anos
servindo-o permitia um comentário irônico: “Ah, o senhor quer é caçar mulher!”.
Ele ficava uma arara, e lembrava de sua esposa, falecida há quinze anos, que sempre
exigiu dele uma elegância inglesa. Não poderia decepcioná-la, jamais, posto que
fizera um juramento no altar, diante do padre e de Deus. E lá ia ele, bengala
na mão e chapéu na cabeça, para seu compromisso diário, onde jogava cartas,
criticava o governo e comentava os resultados dos jogos da semana. O curioso é
que da forma que chegava, ia embora: arrumado, cheiroso, como se estivesse
embrulhado em plástico. E assim levava a vida, até que Maria percebeu que um
dia ele cumpriu sua agenda sem o chapéu. Correu atrás dele, com o dito cujo nas
mãos, abanando-o como uma bandeira do seu time, mas ele fez com as mãos um
gesto que dizia “deixa pra lá”. Outro
dia, nem tão longe desse, foi sem chapéu e não reclamou do lustre do sapato.
Isso era inédito, se era. E para espanto de Maria, repetiu um lenço, nem se
tocou de um mini-micro-quase-imperceptível amassadinho na camisa, e ainda
desabotoou o seu primeiro botão, deixando o pescoço respirar. O que estaria
acontecendo ao velho? O figurino inglês dera lugar a um homem elegante, sim,
mas sem excessos, sem firulas e, principalmente, sem obsessão. Maria jamais
entenderia a mudança. Mas ele, sim: enfim enterrara a esposa; e seu coração
começou a bater, de novo, para alguém.
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