sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (28)

Ele se arrumava com todo esmero, até mesmo para ficar em casa. Estava sempre muito bem penteado, a barba feita e perfumado, com a mesma marca de colônia há 50 anos. Mas para ir para a praça, o que era capricho virava obsessão. Não aceitava sair com uma camisa que não estivesse mais passada que os tempos de vovó menina, trocava o lenço diariamente, e mandava lustrar os sapatos duas vezes, porque achava que Maria não o levava a sério, e cumpria a tarefa de qualquer jeito. Repetia, dia após dia, que passeio na praça era “coisa séria e para profissional”. Maria ria, e a intimidade de tantos anos servindo-o permitia um comentário irônico: “Ah, o senhor quer é caçar mulher!”. Ele ficava uma arara, e lembrava de sua esposa, falecida há quinze anos, que sempre exigiu dele uma elegância inglesa. Não poderia decepcioná-la, jamais, posto que fizera um juramento no altar, diante do padre e de Deus. E lá ia ele, bengala na mão e chapéu na cabeça, para seu compromisso diário, onde jogava cartas, criticava o governo e comentava os resultados dos jogos da semana. O curioso é que da forma que chegava, ia embora: arrumado, cheiroso, como se estivesse embrulhado em plástico. E assim levava a vida, até que Maria percebeu que um dia ele cumpriu sua agenda sem o chapéu. Correu atrás dele, com o dito cujo nas mãos, abanando-o como uma bandeira do seu time, mas ele fez com as mãos um gesto que dizia “deixa pra lá”.  Outro dia, nem tão longe desse, foi sem chapéu e não reclamou do lustre do sapato. Isso era inédito, se era. E para espanto de Maria, repetiu um lenço, nem se tocou de um mini-micro-quase-imperceptível amassadinho na camisa, e ainda desabotoou o seu primeiro botão, deixando o pescoço respirar. O que estaria acontecendo ao velho? O figurino inglês dera lugar a um homem elegante, sim, mas sem excessos, sem firulas e, principalmente, sem obsessão. Maria jamais entenderia a mudança. Mas ele, sim: enfim enterrara a esposa; e seu coração começou a bater, de novo, para alguém.

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