sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (20)

A cigana tinha mais vincos no rosto que os arranhões no portão de ferro do parquinho. Isso lhe dava, para os mais velhos, um certo ar de experiência e longa vida, mas provocava medo nas crianças. Também evitava roupas muito coloridas e caricatas. Usava saias e batas, sim, mas de cores neutras e sempre bem lavadas. Um colar mais chamativo, brincos discretos e um anel apenas, de prata de lei, que subia pelo dedo indicador como uma serpente enrosca sua vítima. No começo, ia um a um, oferecer seu serviço herdado há seis gerações – a leitura das mãos. Depois, já conhecida e até bem falada nas redondezas, preferia esperar por seus clientes, sentada no banco mais afastado dos balanços e das gangorras. Queria distância da meninada, que a chamava de bruxa. Fingia que nem ligava para o xingamento, mas isso a deixava triste. Afinal, se considerava uma boa pessoa e uma cigana séria. Quando via algo de muito ruim na mão alheia, pegava a pessoa pelo braço e dava uma volta, talvez para ganhar tempo e pensar como dar a notícia. No final das contas, dava uma volta na praça e na própria freguesa, porque falava, falava, mas a notícia ruim não dava. Notícia boa não tinha mais ou menos; abria o sorriso e falava na lata, e ainda dava os parabéns. Assim fez sua clientela, e com o tempo até os meninos pararam de chamá-la de bruxa, de tão familiar que ela se tornou daquela gente. Já era até chamada pelo seu nome de batismo, Nazira, e a todos repetia o significado: pessoa distinta. Era, isso mesmo, uma pessoa distinta, mas começou a perder sua clientela, de uma forma tão rápida quanto avassaladora. Chegou a passar um dia inteiro na praça sem apertar uma mão sequer, o que dirá ler a dita cuja. Foi nesse dia que se irritou, e foi ao sorveteiro perguntar se ouvira algum fuxico que justificasse tais acontecimentos. Também procurou a vendedora de doces e o pipoqueiro. Todos lhe apontaram um poste, localizado na ponta da praça. Lá estava colado o cartaz: “trago a pessoa amada em três dias”.

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