segunda-feira, 4 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (29)

Um diamante, em estado bruto, é como o ar: a gente não vê, mas sabe que existe. O guri não acreditou no presente que Deus havia lhe enviado, assim, diretamente a ele, sem intermediários. Correndo pela praça, chutou uma pedrinha diferente, resolveu pegá-la nas mãos, e, quando viu o que era, começou a gritar, eufórico: “tô milionário, tô milionário, Deus me deu um diamante bruto”.  Ainda bem que as pessoas estavam muito ocupadas com seus afazeres - às vezes, fazer nada na praça dá a maior trabalheira - e ninguém ouviu seus devaneios. Porque de eufórico, ele passou para o estágio do medo absoluto, pois poderiam sequestrá-lo e, o que seria uma catástrofe, roubar sua pedra preciosa. Parou de berrar e se imaginou invisível, o que é muito difícil de acontecer com uma criança na faixa dos oito anos. Logo alguém veio perguntar se estava tudo bem, ora um amigo, ora uma babá conhecida, porque o guri parecia estar transtornado. “Dor de barriga, preciso correr para casa”, respondeu, com as mãos fechadas e trancadas feito chave de quatro voltas, com seu tesouro escondido ali. Começou a caminhar lentamente, depois apertou o passo para, enfim, desandar a correr para fora da praça. Queria sumir do recinto, encontrar a mãe e planejar a compra de uma fazenda e de muitos vestidos para ela. Só não contava com o acaso mais uma vez: de chinelos de tira, tropeçou em outra pedra e deixou cair seu bem precioso, o presente Dele, a solução para todos problemas das próximas cinco gerações de sua família. Um senhor estava por perto, e o acudiu. Levantou o garoto, perguntou se estava tudo bem, se abaixou, pegou algo no chão, e se voltou para ele: “Você deixou cair isso de suas mãos, quando tombou. É uma ponta de cristal linda. Dizem que dá sorte. Tome sua pedrinha”, disse, candidamente. “Pedrinha de cristal? Do tipo dos sapatos de princesa?”, pensou o menino. “Isso não pode valer muita coisa”, chegou a conclusão, atirando a pedra para longe, limpando a perna de areia e voltando para a brincadeira de pique com os amigos.

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