PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (27)
Esse negócio de encontro virtual é como o futebol, uma
caixinha de surpresas. Eles se conheceram em alguma praça do ciberespaço, sabe
Deus como, e começaram a se falar duas vezes por semana, utilizando o
computador. Muito rapidamente, as duas vezes viraram quatro, que viraram sete;
não tinha era dia que não havia um alô sequer, e sempre virtual. Nem os números
dos celulares, eles trocaram entre si. Nenhum dos dois sabia explicar, mas
estava bom daquele jeito. Desejavam-se,
mas também tinham, no íntimo, medo de se decepcionar, porque daquela forma
parecia tudo tão perfeito... Ela o via como um cavalheiro, um homem sensível,
educado e amante das artes e dos animais. Ele jurava que havia ao menos uma
mulher no mundo que não tinha TPM, e esta mulher teclava com ele todos os dias.
Como podem caber tantos elogios numa mesma pessoa? Esse talvez fosse o grande
mistério do mundo virtual: cadê os defeitos? O fato é que a conversa foi
ficando cada vez mais íntima, sentiam falta um do outro, e começaram a planejar
o grande encontro. Depois de um bom tempo, resolveram, finalmente, se falar por
telefone. Por que não? O celular tocou, ela reconheceu o número, e não atendeu.
Depois, ficou arrependida, se achou uma adolescente histérica, mas ainda assim
preferiu não retornar a ligação. Ele achou estranho, mas talvez essa estória do
homem ter que tomar a frente, sempre, fosse importante para ela, e já começou a
se incomodar como alguém tão perfeita e maravilhosa como ela pudesse sequer
pensar em fazer joguinhos. Mas ligou de novo, no que ela atendeu no segundo
toque. Foi um papo morno, embora a voz de um soasse bonita no ouvido do outro,
e vice-versa. Na noite desse mesmo dia, teclaram tanto, mas tanto, que o dia
nasceu e ele ainda estava contando como havia levado pontos no dedo mindinho,
quando tinha oito anos. Engraçado, porque na semana seguinte, o fato se repetiu
duas vezes: dois telefonemas mornos, seguidos de duas tecladas de doer as
pontas dos dedos, tadinhos, mas de lavar a alma. Vai ver, era hora mesmo de
sair do virtual, e ambos apostaram que sim. Marcaram o grande encontro na praça
colada à casa dela. Dali, partiriam para algum lugar, escolhido de comum
acordo. Quinze minutos antes da hora marcada, ambos já estavam sentados em um
banco, lado a lado. O encontro foi morno. Resolveram, com a concordância dos
dois, partir dali de novo para o virtual.
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