sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (27)

Esse negócio de encontro virtual é como o futebol, uma caixinha de surpresas. Eles se conheceram em alguma praça do ciberespaço, sabe Deus como, e começaram a se falar duas vezes por semana, utilizando o computador. Muito rapidamente, as duas vezes viraram quatro, que viraram sete; não tinha era dia que não havia um alô sequer, e sempre virtual. Nem os números dos celulares, eles trocaram entre si. Nenhum dos dois sabia explicar, mas estava bom daquele jeito.  Desejavam-se, mas também tinham, no íntimo, medo de se decepcionar, porque daquela forma parecia tudo tão perfeito... Ela o via como um cavalheiro, um homem sensível, educado e amante das artes e dos animais. Ele jurava que havia ao menos uma mulher no mundo que não tinha TPM, e esta mulher teclava com ele todos os dias. Como podem caber tantos elogios numa mesma pessoa? Esse talvez fosse o grande mistério do mundo virtual: cadê os defeitos? O fato é que a conversa foi ficando cada vez mais íntima, sentiam falta um do outro, e começaram a planejar o grande encontro. Depois de um bom tempo, resolveram, finalmente, se falar por telefone. Por que não? O celular tocou, ela reconheceu o número, e não atendeu. Depois, ficou arrependida, se achou uma adolescente histérica, mas ainda assim preferiu não retornar a ligação. Ele achou estranho, mas talvez essa estória do homem ter que tomar a frente, sempre, fosse importante para ela, e já começou a se incomodar como alguém tão perfeita e maravilhosa como ela pudesse sequer pensar em fazer joguinhos. Mas ligou de novo, no que ela atendeu no segundo toque. Foi um papo morno, embora a voz de um soasse bonita no ouvido do outro, e vice-versa. Na noite desse mesmo dia, teclaram tanto, mas tanto, que o dia nasceu e ele ainda estava contando como havia levado pontos no dedo mindinho, quando tinha oito anos. Engraçado, porque na semana seguinte, o fato se repetiu duas vezes: dois telefonemas mornos, seguidos de duas tecladas de doer as pontas dos dedos, tadinhos, mas de lavar a alma. Vai ver, era hora mesmo de sair do virtual, e ambos apostaram que sim. Marcaram o grande encontro na praça colada à casa dela. Dali, partiriam para algum lugar, escolhido de comum acordo. Quinze minutos antes da hora marcada, ambos já estavam sentados em um banco, lado a lado. O encontro foi morno. Resolveram, com a concordância dos dois, partir dali de novo para o virtual.

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