quarta-feira, 13 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (31)

O castelo parecia intransponível. O muro era altíssimo, construído com pedras seculares, e estava cercado por um lago repleto de jacarés. Ou crocodilos, o que for mais ardiloso e mau. A ponte estava içada, e seriam necessários vários de homens bem musculosos para baixá-la à força. Do alto das torres, arqueiros em posição de ataque, esperando a ordem do capitão. Como nos filmes medievais, tinham flechas em chamas. Duas das torres centrais contavam com catapultas, que lançariam pedras como granadas, ao simples “já” do mesmo capitão. Aliás, o capitão vestia uma roupa incomum àquela época. Enquanto seus comandados eram soldados medievais, ele era um caubói, com direito a botas, colete e chapéu. E um cinturão segurando as calças, com uma cartucheira, revólver e balas, muitas balas. Isso era um detalhe que pouco importava, porque ele era um capitão mau, muito mau, que dava ordens aos berros, voz grave e tenebrosa. O capitão caubói havia sequestrado a princesa, e o príncipe precisava resgatar o seu amor. Uma estória como essa precisa ter muita ação e um final feliz, mas como o príncipe iria atravessar aquela fortaleza e salvar sua amada? Era preciso, porém, um pouco de imaginação para saber que o príncipe era o dito cujo, porque ele não usava botas, nem capa, nem coroa, e muito menos tinha uma espada mágica. Era um índio, peito de fora, cocar colorido, arco e flecha nas mãos. Mas era um príncipe lindíssimo, muito rico e poderoso, que estava acostumado a situações como aquela. Ele estava escondido atrás de uma moita, mal respirava para não ser notado, mas sua cabeça estava a mil, pensando em um plano infalível para cumprir sua missão com êxito. Voar seria arriscado, porque os arqueiros o matariam, com suas flechas de fogo. Só havia um jeito para vencer o capitão caubói da voz grave: ficar invisível. Até aí, tudo certo, mas como salvar a princesa sem ser notado? Ahn, claro, bastava torná-la invisível também! O plano parecia infalível e o príncipe cara, corpo e roupa de índio decidiu fazer a operação secreta à noite, quando todos gatos são pardos, menos os invisíveis. Resolveu esperar, esperar, esperar... quando ouviu a poderosa voz de um gigante, ops, de uma giganta: “Juninho, junta os bonecos todos e vamos simbora da praça, porque tá na hora de almoçar, e sua mãe me mata se a gente se atrasar”. Uma giganta daquela, nem o capitão caubói, muito menos o príncipe cara, corpo e roupa de índio podiam enfrentar. 

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