PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (31)
O castelo parecia intransponível. O muro era altíssimo,
construído com pedras seculares, e estava cercado por um lago repleto de
jacarés. Ou crocodilos, o que for mais ardiloso e mau. A ponte estava içada, e
seriam necessários vários de homens bem musculosos para baixá-la à força. Do
alto das torres, arqueiros em posição de ataque, esperando a ordem do capitão.
Como nos filmes medievais, tinham flechas em chamas. Duas das torres centrais
contavam com catapultas, que lançariam pedras como granadas, ao simples “já” do
mesmo capitão. Aliás, o capitão vestia uma roupa incomum àquela época. Enquanto
seus comandados eram soldados medievais, ele era um caubói, com direito a
botas, colete e chapéu. E um cinturão segurando as calças, com uma cartucheira,
revólver e balas, muitas balas. Isso era um detalhe que pouco importava, porque
ele era um capitão mau, muito mau, que dava ordens aos berros, voz grave e
tenebrosa. O capitão caubói havia sequestrado a princesa, e o príncipe
precisava resgatar o seu amor. Uma estória como essa precisa ter muita ação e
um final feliz, mas como o príncipe iria atravessar aquela fortaleza e salvar
sua amada? Era preciso, porém, um pouco de imaginação para saber que o príncipe
era o dito cujo, porque ele não usava botas, nem capa, nem coroa, e muito menos
tinha uma espada mágica. Era um índio, peito de fora, cocar colorido, arco e
flecha nas mãos. Mas era um príncipe lindíssimo, muito rico e poderoso, que
estava acostumado a situações como aquela. Ele estava escondido atrás de uma
moita, mal respirava para não ser notado, mas sua cabeça estava a mil, pensando
em um plano infalível para cumprir sua missão com êxito. Voar seria
arriscado, porque os arqueiros o matariam, com suas flechas de fogo. Só havia
um jeito para vencer o capitão caubói da voz grave: ficar invisível. Até aí,
tudo certo, mas como salvar a princesa sem ser notado? Ahn, claro, bastava
torná-la invisível também! O plano parecia infalível e o príncipe cara, corpo e
roupa de índio decidiu fazer a operação secreta à noite, quando todos gatos são
pardos, menos os invisíveis. Resolveu esperar, esperar, esperar... quando ouviu
a poderosa voz de um gigante, ops, de uma giganta: “Juninho, junta os bonecos
todos e vamos simbora da praça, porque tá na hora de almoçar, e sua mãe me mata
se a gente se atrasar”. Uma giganta daquela, nem o capitão caubói, muito menos
o príncipe cara, corpo e roupa de índio podiam enfrentar.
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