sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (4)

Sabe aquela hora quando todos gatos são pardos? Hora e meia depois, ele decidiu cruzar a praça, fugindo de uma insônia que torturava-o no calor de seu quarto. Acreditou piamente que iria tomar conta do espaço, sem viva-alma para lhe competir a atenção do nada. Calçou as havaianas, a bermuda vestiu ao contrário, aéreo que estava, e optou por uma camiseta com o desenho desbotado de Che Guevara. Sim, ele ainda tinha essa camiseta, e fazia questão de costurar ele mesmo os buracos, receoso da promessa da mãe, de tornar o que chamava de pano de chão em fato. Olhou para um lado, para outro, chegou a parar nos balanços, até ensaiou empurrar um amiguinho imaginário que, aos 26 anos, seria uma vergonha dar vida. Riu de si e pôs se a caminhar, crente que encontraria criaturas da noite, quem sabe um rato, ou mesmo um gato preto. Mas encontrou foi ela. Olhar perdido, e havaianas da mesma cor – brancas.

- Boa noite – arriscou.
- Bom dia – ela devolveu. A entonação soou como música, e o sorriso, quadro do Louvre.

Acabaram no balanço. Há quem acredite que não: começaram no balanço.

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