PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (4)
Sabe aquela hora quando todos gatos são pardos? Hora e meia
depois, ele decidiu cruzar a praça, fugindo de uma insônia que torturava-o no
calor de seu quarto. Acreditou piamente que iria tomar conta do espaço, sem
viva-alma para lhe competir a atenção do nada. Calçou as havaianas, a bermuda
vestiu ao contrário, aéreo que estava, e optou por uma camiseta com o desenho
desbotado de Che Guevara. Sim, ele ainda tinha essa camiseta, e fazia questão
de costurar ele mesmo os buracos, receoso da promessa da mãe, de tornar o que
chamava de pano de chão em fato. Olhou para um lado, para outro, chegou a parar
nos balanços, até ensaiou empurrar um amiguinho imaginário que, aos 26 anos,
seria uma vergonha dar vida. Riu de si e pôs se a caminhar, crente que
encontraria criaturas da noite, quem sabe um rato, ou mesmo um gato preto. Mas
encontrou foi ela. Olhar perdido, e havaianas da mesma cor – brancas.
- Boa noite – arriscou.
- Bom dia – ela devolveu. A entonação soou como música, e o
sorriso, quadro do Louvre.
Acabaram no balanço. Há quem acredite que não: começaram no
balanço.
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