sábado, 9 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (30)

Ele ficou tão bravo, mas tão bravo, que não quis falar com ela. Limitou-se a enviar um torpedo, seco, milimétrico, perguntando onde estava, pois a esperava, no local marcado, fazia longos cinco minutos. Um, dois, três, quatro, cinco minutos, que, assim, para ele, pareciam uma eternidade. Ela, por sua vez, chegara 15 minutos mais cedo, porque estava ansiosa, porque estava com saudades, porque tinha horror a atrasos e porque o trânsito resolveu fluir bem naquele começo de noite. Leu o torpedo, releu, estranhou o tom fatídico, e ligou para ele. “Mas a gente combinou as sete da noite”, falou, substituindo o alô pela defesa da honra. “Nada disso, falei que estaria aqui as seis e meia, e  foi o que fiz. Cadê você?”, vociferou ele, num tom estranho à relação deles. Ela disse que chegara quinze minutos antes, e que não havia motivos para um desencontro. “Talvez você tenha pensado no horário, mas não me falou. Talvez eu não tenha entendido mal, que diferença faz? Foi um desentendimento, apenas, algo absolutamente corriqueiro, e você está fazendo um barulho do tamanho da mobilização nas redes sociais exigindo a renúncia do Renan Calheiros da presidência do Senado”, comparou, irritada, e, agora, criticando o namorado. O fato é que conversaram por menos do que três minutos, discutindo sobre a diferença de quinze minutos para cá, quinze minutos para lá. Falaram da hora, do respeito ao combinado, até que alguém lembrou do óbvio: “onde você está?”, um dos dois, pouco importa quem, perguntou. “Oras, onde marcamos, esperando por sua presença”, o outro respondeu. “Mas eu também estou onde combinamos”, estranhou o primeiro interlocutor. Deram-se conta da bobagem: ambos chegaram na praça na hora certa, a tempo de um beijo tão desejado, mas cada um esperou pelo outro numa ponta do local. Ele, ao lado dos balanços. Ela, quase na frente da igreja. Quando há falta de comunicação, a distância é muito maior. Marcaram, então, no coreto. E mandaram o desentendimento para bem longe dali, onde alguém pariu alguém.

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