PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (18)
De um lado, Bema, Clovis, Fininho, Davi, Cheiroso, Dedinho e
Da Silva. Um esquadrão, dono de um cartel de vitórias de dar inveja ao
Barcelona. Do outro, Babau, Claudinho, Ruy, Chupeta, Catatau, Sou Feliz e
Armandinho, time de bambas, tudo filhote de Neymar, jogadores que partem para
cima e, se o adversário der mole, ainda voltam para mais um olé. Uma partida
antológica, e poucos arriscariam a palpitar o placar, na finalíssima que
aconteceria naquela tarde, no estádio municipal Nossa Praça. A torcida
comparece em peso: Enio, Vitinho, Siri, Mussum, Hélio, Waldemar, Crazy,
Silvinho, Macedão, Macedinho, Graúdo, Renata, Claudinha, Suely e, acreditem se quiser,
a mais linda menina do pedaço, Madalena. E é só, porque esse tanto de gente
lota os dois bancos transformados em camarotes de honra para a peleja. Os times
estão em campo, mas encontram um contratempo: quem consegue por para fora da
linha o viralata Seu Zé? Adversário comum a todos, dá uma canseira na turma e
só resolve deixar o campo depois de uns dez minutos de show. Ufffa, hora da
bola rolar. Par ou ímpar decidido, o time de Bema vai sair com a bola, e a
torcida se prepara para vibrar, mas... é preciso esperar a menina passar com o
carrinho de bebê, e o dito cujo ali dentro, dormindo como se aquela fosse uma
tarde absolutamente comum. E é claro que não era, porque esse jogo histórico
estava marcado há exatos dois dias, e a ansiedade era tamanha que os meninos de
um time nem falavam com seus adversários da outra equipe. Dizem até que
Cheiroso e Chupeta trocaram juras e injúrias, com direito a tapas e pontapés,
mas tal estória já fazia parte da lenda do clássico. E a bola finalmente ia
rolar, não fosse mais um pequeno contratempo – a invasão de duas criancinhas em
plena grande área de um dos times. Resolvido o probleminha, o jogo de fato
começa, para alívio de todos e delírio da platéia. Clovis passa para Cheiroso
que, de primeira, toca para Dedinho, que avança, todo todo, em direção ao gol
do adversário. Ele dribla um e quando vai passar para alguém bem colocado, é
interrompido. “Ruyzinho, vem agora! O almoço está pronto e você ainda precisa
se lavar. Pega sua bola e já para casa”, decreta o fim do jogo a mãe do dono da
redonda. Foi um zero a zero de amargar.
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