sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (26)

Não me pergunte como, mas ele guardava na cabeça, sem anotações, o número de vezes que fora à praça com ela, em 62 anos de casamento. Lembrava da data do primeiro passeio, sem direito sequer a mãos dadas, mas com a certeza de que era para sempre. O primeiro beijo, praticamente roubado, também foi ali, como foi a primeira briga, o primeiro reatamento, a escolha dos nomes dos quatro filhos e cada aniversário de um e de outro, que sempre eram comemorados na praça por apenas eles dois. Ele dizia que ali era a sua verdadeira igreja e que Deus inventou a praça para descansar em paz, depois de seis dias de intensos trabalhos. Todas as vezes que precisou tomar uma decisão importante, daquelas que mexem com a vida da família, o fez sentado no mesmo banco de sempre. Também viu os meninos crescerem, correndo pelos quatro cantos da praça, até que seus bumbuns não cabiam mais no assento do balanço. No dia que o menor dos quatro disse que não queria mais ir para a praça, trocando-a pelo mundo virtual de seu computador, chorou. Depois que se aposentou, passou a frequentar o local diariamente, no mesmo horário, acompanhado de sua esposa. As vezes, um ou outro neto aparecia, e ele pegava a criança pelas mãos e a levava até cada amigo ou conhecido, perguntando se havia coisa mais bonita nesse mundo. Ele mesmo respondia: “há, todos meus netos juntos”, e gargalhava. Para ele, ir à praça diariamente era um compromisso sagrado, e só a chuva o demovia do cumprimento de seu dever. Prestes a completar 85 anos, avisou a esposa que queria uma festa completa na praça. Com a presença de todos os parentes diretos, agregados e amigos íntimos que, em sua conta, daria umas 60 pessoas. Pediu bolo de nozes, brigadeiro branco e casadinho, apesar das proibições impostas por sue médico. E fez um último pedido: “quero dançar uma valsa na praça com você, em plena luz da tarde”. Absolutamente tudo o que ele pediu foi providenciado. Um filho viria da capital, com a família e os sogros, para a festa. Um amigo de infância, que não saia mais de casa, garantiu que abriria, neste dia, uma exceção. E nenhum detalhe foi esquecido pela esposa e as filhas, que ajudaram na produção do grande evento. Um dia antes, ele foi à praça, para se certificar de que o local estava devidamente limpo. Ficou mais tempo que o de costume e pediu para sua esposa ir para casa sem sua companhia, pois queria ficar um pouco só. E assim foi feito, no último dia dele em sua praça. Não teve outras visitas.

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