PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (9)
Você lembra do seu primeiro beijo? Bem, o que me interessa
saber, de verdade, é se você lembra bem do seu primeiro beijo, com detalhes...
Do meu, lembro como hoje. Sabor de pipoca doce, muito caramelizada. E com uma
pitada de canela, se meu olfato não me engana. Eu estava na praça. Ela também.
Quando a vi, de jardineira jeans e camiseta verde, meu coração pegou a primeira
condução para a boca. E ameaçou pular para o chão, caso não me aproximasse
dela. Eu disse praça? Eu estava era no espaço. Não via absolutamente nada na
minha frente, a não ser ela. Ela e as estrelas. A lua, ela e as estrelas. A
lua, ela, as estrelas e uma nuvem negra gigantesca e assustadora, dona de raios
e trovoadas mil, que me intimava a congelar. Uma luta entre o medo e o coração.
Um duelo de espadachins experientes, cada qual defendendo seu clã... um, o clã
do amor, o outro, o clã da timidez. Uma luta feroz; achei que não sairia vivo
dali, senão por um detalhe. Ou melhor, uma voz, uma voz doce, delicada e
encantadora. “Oi, sabia que ia encontrar você aqui”. Não consegui falar nada
diferente de um assustado “é?”. E ela: “Claro. A gente se encontrou a semana toda,
porque hoje não se encontraria?”, riu, menos debochada e mais convidativa.
Depois disso, eu só consigo lembrar do cheiro de pipoca doce caramelizada
saindo da panela do pipoqueiro, com pitada de canela. E da respiração dela.
Disso me lembro muito bem.
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