sábado, 2 de março de 2013


PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (21)

Ela estava fantasiada de onça, e se posicionou estrategicamente em frente aos músicos, diante do coreto, para dançar e apreciar a batida dos pandeiros. Ele apareceu por lá meio que por acaso; se tinha uma fantasia, era dentro de si – ser devorado por aquela felina linda, charmosa e de pele cor de cobre. Mas como se fazer notar? Se estivesse com roupa de caçador, espingarda na mão inclusive, chegava junto e a caçava poeticamente. Fosse uma roupa de mágico, chegava perto, rodava a varinha e dizia que iria transformá-la de onça em gatinha manhosa. Ainda que estivesse de palhaço, perguntaria se ela topava fazer, com ele, um número circense de suspense. Mas ele vestia short e camiseta, e nem um adereço tinha para lembrar que era carnaval. Pensou em cantar forte e bonito, talvez a oncinha percebesse, mas a praça estava lotada, e todos acompanhavam os sucessos, em um coral de bêbados e de gente feliz. Algum plano precisava ser arquitetado, e rápido, porque em uma selva como aquela, logo logo chegaria algum índio, um pirata talvez, mesmo um caubói, tentando amansar a fera cor de cobre. Apelou para a telepatia. Mirou seu desejo, sua vontade e seu chakra da comunicação nela, imaginou monte de iogues mentalizando com ele (“vem, oncinha, vem”), mas de nada adiantou. Muito pelo contrário; quando se deu conta, havia perdido o passo e nem sabia que música estava tocando. Teve uma ideia: cortou o papel com a letra do samba-enredo do bloco em três pedaços simétricos, os transformou em três bolinhas, e planejou jogá-las, uma de cada vez, em sua direção. A primeira atingiu um negão fantasiado de Minnie, que chegou a olhar pra trás, mas ele fez que nem estava aí. A segunda, sim, bateu bem no cucuruco da dita cuja, que percebeu a jogada, mas olhou para o lado oposto, com cara feia, diga-se de passagem, procurando o imbecil que lhe incomodara. A terceira bolinha, bem, essa ele deixou escapar pelas suas mãos, porque entendeu que isso não faria a menor diferença em seu dilema. Resolveu chegar mais perto. E mais. Um tanto mais. Aportou ao seu lado. Ainda tomava coragem para falar qualquer coisa, algo diferente e mais criativo que um “oi”... quando ela escorregou, sabe-se lá em quê, e caiu. Ele lhe estendeu a mão, e a trouxe de volta do chão. Enfim, os dois sorrisos se encontraram.

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