PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (21)
Ela estava fantasiada de onça, e se posicionou
estrategicamente em frente aos músicos, diante do coreto, para dançar e
apreciar a batida dos pandeiros. Ele apareceu por lá meio que por acaso; se
tinha uma fantasia, era dentro de si – ser devorado por aquela felina linda,
charmosa e de pele cor de cobre. Mas como se fazer notar? Se estivesse com
roupa de caçador, espingarda na mão inclusive, chegava junto e a caçava
poeticamente. Fosse uma roupa de mágico, chegava perto, rodava a varinha e
dizia que iria transformá-la de onça em gatinha manhosa. Ainda que estivesse de
palhaço, perguntaria se ela topava fazer, com ele, um número circense de
suspense. Mas ele vestia short e camiseta, e nem um adereço tinha para lembrar
que era carnaval. Pensou em cantar forte e bonito, talvez a oncinha percebesse,
mas a praça estava lotada, e todos acompanhavam os sucessos, em um coral de
bêbados e de gente feliz. Algum plano precisava ser arquitetado, e rápido,
porque em uma selva como aquela, logo logo chegaria algum índio, um pirata
talvez, mesmo um caubói, tentando amansar a fera cor de cobre. Apelou para a
telepatia. Mirou seu desejo, sua vontade e seu chakra da comunicação nela,
imaginou monte de iogues mentalizando com ele (“vem, oncinha, vem”), mas de
nada adiantou. Muito pelo contrário; quando se deu conta, havia perdido o passo
e nem sabia que música estava tocando. Teve uma ideia: cortou o papel com a
letra do samba-enredo do bloco em três pedaços simétricos, os transformou em
três bolinhas, e planejou jogá-las, uma de cada vez, em sua direção. A primeira
atingiu um negão fantasiado de Minnie, que chegou a olhar pra trás, mas ele fez
que nem estava aí. A segunda, sim, bateu bem no cucuruco da dita cuja, que
percebeu a jogada, mas olhou para o lado oposto, com cara feia, diga-se de
passagem, procurando o imbecil que lhe incomodara. A terceira bolinha, bem,
essa ele deixou escapar pelas suas mãos, porque entendeu que isso não faria a
menor diferença em seu dilema. Resolveu chegar mais perto. E mais. Um tanto
mais. Aportou ao seu lado. Ainda tomava coragem para falar qualquer coisa, algo
diferente e mais criativo que um “oi”... quando ela escorregou, sabe-se lá em
quê, e caiu. Ele lhe estendeu a mão, e a trouxe de volta do chão. Enfim, os
dois sorrisos se encontraram.
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