PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (38)
Ela era a mais perfeita tradução de uma boneca Barbie. Alta e magra, pele clara e cabelos loiros bem longos e finos, mas de um loiro, assim, de gosto duvidoso. Algo com a naturalidade de um cabelo fabricado em laboratório e quase perfeito, já deu para entender? A roupa, eu particularmente nem saberia descrever... mas era grife dos pés à cabeça. Engraçada era a bolsinha ajeitada no ombro esquerdo, rosa pink, quase do tamanho de uma carteira, de tão pequena e, para mim, inútil. Mas ouvi dizer que tem bolsa que custa quatro dígitos, e aquela devia ser uma destas peças raras. Muita maquiagem e salto agulha tinindo de novo. Ele de blazer bem cortado, sapatos de couro, tudo muito combinado e elegante, sem falar nos cabelos grisalhos tratados quinzenalmente no salão. E as unhas? De tão perfeitas, nunca devem ter frequentado um fla-flu na vida. Um verdadeiro metrossexual de meia idade. Pois foi esse o casal que desceu daquele carro magnífico, importado, cujo IPVA e seguro pagam o aluguel anual de muita gente, mas que, como todo simples mortal (não acredito que escrevi isso), também quebra vez por outra. O carro enguiçou, e enquanto esperavam pelo socorro do seguro, decidiram sentar no banco da praça. Bem, ainda não inventaram praça com ar condicionado, e ali não era como o restaurante exclusivo para onde seguiam, lugar em que se come pouco e se fala menos ainda, mas perfeito para ser visto e comentado. Então, o que fazer para passar o tempo? A carrocinha de cachorro-quente estava absolutamente fora do plano deles, me poupem... O angu, nem sabiam o que era – e provavelmente tinham raiva de quem sabe. Também não pega bem chupar picolé no palitinho, naqueles trajes, em uma praça pública. Só lhes restavam conversar, um com o outro. Não parecia uma tarefa tão simples, porque uma conversa precisa de um assunto que sustente mais de duas ou três intervenções de cada um. Mas não custava tentar.
- Quando eu era pequeno, vivia numa praça perto de casa. Chorava toda vez que era hora de ir embora – disse ele, quase que para si mesmo.
- Então isso te traz boas lembranças, não? – retrucou ela, tentando ser amável.
- Nem lembro direito... Comecei a trabalhar com 12 anos, a partir daí não tinha tempo para nada, depois cismei que deveria construir um império, e não sai daquele escritório enquanto meu sonho não se realizou. Na verdade, já sou um imperador, mas continuo preso no escritório. Nem sei como se brincava... – respondeu, lamentosamente.
- Nunca frequentei praças. Minha mãe não queria que eu me misturasse. Dizia que não ficava bem. Só deixava eu brincar com as crianças do prédio, no playground. E nem era com todas – ela abriu o coração.
O socorro chegara, o carrão agora estava okey, e a hora estava adiantada. Mas eles continuavam ali, na praça, noite adentro, comendo cachorro-quente, chupando picolé e dando risadas altas.
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