sexta-feira, 31 de maio de 2013

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (39)

Não dava para ouvir direito o diálogo entre elas duas, muito mais pela voz contida de uma delas, mas a conversa era mais ou menos assim:

- Quando eu fico doidaça, eu simplesmente passo a ser mais eu. E isso tem nome: li-ber-da-de – soletrou, com direito a hífens que andam tão em baixa na nossa língua.
- Eu conheço isso por outro nome: ir-res-pon-sa-bi-li-da-de. Também é bem conhecido como imaturidade, vadiagem, molecagem e p-o-r-r-a l-o-u-q-u-i-c-e – devolveu, com direito a muito mais hífens.

E a discussão não parou aí. Transformou-se no espetáculo do fim da tarde, para aqueles que insistiam em ficar na praça, embora estivesse esfriando e nuvens pretas anunciavam chuva para já. A libertária, claro, tinha gestos mais contundentes, teatrais, usava o corpo inteiro para se expressar, às vezes parecia uma cantora de ópera. A crítica era contida, e, mesmo nervosa, falava baixo, enquanto os olhos percorriam os cantos da praça, para ver se o mico era tão grande a ponto de mobilizar as pessoas que ali estavam. E mobilizou. Tanto que agora nem era preciso apertar os ouvidos e olhar disfarçado para a dupla – liberou geral, e a briga virou, mesmo, espetáculo de teatro de rua, mas sem direito a chapéu recolhendo grana no final.

- Você acha que eu estou preocupada? Tou nem aí para esse povo careta. Porque eu pago minhas contas, e não permitirei que você, nem ninguém, me julgue impunemente. Muito menos quem não me conhece, não sabe, como eu, o sabor do pão que o diabo amassou. E sem margarina, viu? – rebateu, acrescentando ao final uma risada histriônica.

- Quer saber? Isso é discurso, balela, retórica. Fuga dos fatos. Você simplesmente resolve esquecer da vida, pega carona em alguma viagem pessoal interplanetária, e esquece de seus compromissos. E não é um compromisso assim, sem importância. Você esqueceu de mim... – a voz, agora, era ainda mais baixa, e ela já não olhava mais para os lados. Chorava.

- Tenho meus amigos, meus compromissos, meus interesses. Sou uma mulher independente, tenho idade para isso. Você deveria saber disso, deveria estar acostumada já com isso – rebateu, em um tom menos agudo e mais conciliador.

E foi por aí que a briga enveredou, até virar conversa, terminando numa boa lavagem de roupa suja. A mãe, de saia indiana, colares multicoloridos, tranças enormes e braços tatuados, abraçou a filha e prometeu não mais “viajar” na frente dela que, por sua vez, jurou, de pés juntos, que qualquer hora tomaria coragem e experimentaria embarcar com ela para outros horizontes. Saíram da praça abraçadas, mãe e filha, calejadas pelo choque de gerações.

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