sábado, 4 de maio de 2013

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (36)

Cada um defende o herói que lhe convém. Um homem feito de ferro, ou biônico, que vale seis milhões de dólares, que use capa ou máscara e espada, talvez uma mulher maravilha ou um trio de panteras... o que importa, nessas horas, é combater o mal e, claro, vencê-lo. Se possível, como se fosse no último minuto do segundo tempo, com um gol de pênalti mal marcado, e sempre com o rosto e o corpo marcados, com muitos arranhões e algum sangue, para dar mais emoção. Os heróis citados na rodinha da praça eram praticamente os mesmos, incluindo, claro, alguns pais. Mas a turma se calou foi quando um dos meninos, um moleque franzino e baixinho, que sempre usava um boné virado para trás, revelou seu herói preferido: “Seu Geraldo”. Gargalhadas e vaias se misturaram, deixando-o constrangido e calado. Alguém se lembrou de questionar quem era esse herói, de nome tão comum e desconhecido, mas a gritaria era tamanha que ninguém ouviu a resposta: “é o porteiro do meu prédio”. Os meninos continuaram a zoá-lo, em um bullying orquestrado, até que - coincidência de herói? - Seu Geraldo apareceu para buscá-lo, à pedido da mãe do menino. O herói era tão magro quanto seu fã, lhe faltavam músculos e cabelos e, para falar a verdade, até mancava um pouco de uma perna. Isso sem falar que parecia um tanto - como dizer? - velho para ser da liga da justiça. Onde já se viu um herói de ralos cabelos brancos? O moleque o abraçou, saiu da rodinha de nariz em pé, altivo como alguém que tira nota dez em prova de trigonometria, e já um tanto afastado da turma, levantou o dedo médio e gritou: “Esse é o Seu Geraldoooooo. E ele não é pouca coisa nãooooo”.  Ainda ouvia o eco das risadas, quando se virou para o porteiro e, com uma voz ansiosa e ao mesmo tempo confiante, pediu: “Seu Geraldo, me conta de novo como o senhor conseguiu matar aquela ratazana enorme, que invadiu o prédio ontem pela manhã?”. E o herói pôs se a reproduzir a luta do bem contra o mal, cheio de detalhes e lances espetaculares, pela terceira ou quarta vez...

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