Cada um defende o herói que lhe convém. Um homem feito de
ferro, ou biônico, que vale seis milhões de dólares, que use capa ou máscara e
espada, talvez uma mulher maravilha ou um trio de panteras... o que importa,
nessas horas, é combater o mal e, claro, vencê-lo. Se possível, como se fosse no
último minuto do segundo tempo, com um gol de pênalti mal marcado, e sempre com
o rosto e o corpo marcados, com muitos arranhões e algum sangue, para dar mais
emoção. Os heróis citados na rodinha da praça eram praticamente os mesmos,
incluindo, claro, alguns pais. Mas a turma se calou foi quando um dos meninos,
um moleque franzino e baixinho, que sempre usava um boné virado para trás,
revelou seu herói preferido: “Seu Geraldo”. Gargalhadas e vaias se misturaram,
deixando-o constrangido e calado. Alguém se lembrou de questionar quem era esse
herói, de nome tão comum e desconhecido, mas a gritaria era tamanha que ninguém
ouviu a resposta: “é o porteiro do meu prédio”. Os meninos continuaram a
zoá-lo, em um bullying orquestrado, até que - coincidência de herói? - Seu
Geraldo apareceu para buscá-lo, à pedido da mãe do menino. O herói era tão
magro quanto seu fã, lhe faltavam músculos e cabelos e, para falar a verdade,
até mancava um pouco de uma perna. Isso sem falar que parecia um tanto - como dizer? - velho para ser da liga da justiça. Onde já se viu um herói de ralos
cabelos brancos? O moleque o abraçou, saiu da rodinha de nariz em pé, altivo
como alguém que tira nota dez em prova de trigonometria, e já um tanto afastado
da turma, levantou o dedo médio e gritou: “Esse é o Seu Geraldoooooo. E ele não
é pouca coisa nãooooo”. Ainda ouvia o
eco das risadas, quando se virou para o porteiro e, com uma voz ansiosa e ao
mesmo tempo confiante, pediu: “Seu Geraldo, me conta de novo como o senhor
conseguiu matar aquela ratazana enorme, que invadiu o prédio ontem pela manhã?”.
E o herói pôs se a reproduzir a luta do bem contra o mal, cheio de detalhes e
lances espetaculares, pela terceira ou quarta vez...
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