quarta-feira, 1 de maio de 2013

PEQUENA CRÔNICA DE UMA PRAÇA (35)

Não existia amizade mais forte do que aquela. Eles dois eram unha e carne, pastel e recheio, cabeça e chapéu. Não havia dia que não se encontravam na praça e brincavam, como se nada mais importasse, inclusive o tempo. Nunca reclamavam da hora de parar, porque sabiam, um e outro, que depois a brincadeira sempre recomeçaria. E tinha mais: nessa amizade, não havia espaço para terceiros, quartos e quem mais viesse. Quando o primeiro chegava na praça, ficava de prontidão, a esperar pelo outro. E era uma espera solitária, porque o mais apressadinho simplesmente não brincava enquanto o outro não aparecesse. De certa forma, não havia quem não achasse aquela amizade linda, exemplar, cativante. Mas também não tinha quem não estranhasse tanta exclusividade. Vai entender a cabecinha daqueles dois... mas se estão tão felizes, para quê questionar? Eu é que não iria me meter na felicidade alheia. E assim eles foram crescendo, crescendo – e todos em volta também. A amizade, as brincadeiras, os encontros, entretanto, não mudaram, porque dizem que em time que está ganhando não se mexe, vai ver era isso... Mas as necessidades de crianças são diferentes do que querem os pré-adolescentes e, ainda mais, os “aborrecentes”. Agora é que os mais curiosos ficaram de butuca ligada, esperando para ver onde aquilo ia dar, porque namorar é preciso, e aquela amizade era assim, amigos para sempre. Ambos começaram a se dar conta de certas diferenças, sentiram necessidade de ampliar seus horizontes, começaram a procurar novos ambientes, sentiram novos desejos, mas não deixaram de frequentar, ainda que de vez em quando, a praça. Afinal, por que um cão não pode ser amigo de uma gata?

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